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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Fortaleza da Imaginação







É muito fácil nos iludirmos com a nossa imaginação. Por mais perfeita que seja, por mais que tenhamos visto algo próximo, ainda é imaginação. Sonhar com algo não é conquistar. Imaginar não é viver. A imaginação nos aproxima de um contato, com o devido desenvolvimento próprio, pode nos levar a anteciparmos algo o que iremos passar. Mas nada substitui a experiência.

É claro que poucos têm possibilidades com o imaginário, que é uma das portas de entrada para o universo além do físico e não propriamente metafísico, o mundo não visível pelos nossos olhos materiais. A busca pelo imaginário já é uma forma de descolarmos dos véus da ilusão. Mitos, lendas, histórias, contos, folclore. Ali estão descritos seres e acontecimentos que nos deslocam do mundo aparente e abrem o caminho para algo maior. Quanto mais conhecemos, do mundo imaginário, mais podemos nos sincronizar como Tempo da dimensão onde encontramos o invisível.

A dimensão do imaginário em principio nos tira das amarras da realidade ilusória. Podemos mesclar o invisível com conceitos, criar simbolismos, perceber-nos através dos espelhos da imaginação. Olhamos para mitos e vemos sentidos “psicológicos”. Estudamos deuses e procuramos encontrar seus significados e o que representariam. Estudando mais, vamos nos intrincando em um universo próprio, mesclado com a tentativa de compreensão de todos os seres humanos. Esses olham para as fábulas e procuram sentidos e explicações para se entenderem. Tentam se aproximar da auto-compreensão, redefinindo as percepções do sagrado de povos antigos, ou tidos como “primitivos”. Observam a religião alheia e a mesclam com todos os tipos de simbologias e psicologismos. Descaracterizam o sentido de sagrado de diversas culturas, procurando os sentidos dos seres humanos.

O estudo da mitologia é algo extenso, uma tentativa de sistematização do funcionamento da psique, tendo em vista as suas expressões no ponto de vista mítico. A comparação de divindades tem o sentido de perceber elementos da alma através de suas crenças e da criação de divindades. Com nascem crenças, que tipo de função gerou determinado rito. Como as crenças da humanidade evoluíram até os momentos atuais. Quais os componentes das religiões atuais decorreram do culto de antigas divindades primitivas.

O estudo do fenômeno espiritual, em todas suas escalas, daria respostas do funcionamento de determinadas áreas do cérebro. A compreensão do ser humano e sua composição íntima, manifestada por todas suas áreas de expressão. As crenças moldando o aparecimento e desenvolvimento da civilização. Relações entre culturas antigas e atuais e a forma como o imaginário se compõe. Desse ponto de vista, é fácil penetrar nos elementos próprios, acessando os mitos diretamente e procurando a forma como reagimos miticamente. Nossos mitos pessoais que se relacionam com determinado mitologema e em como podemos desenvolver todo o nosso potencial. Como ir além dos mitos que criamos para nós? Como modificá-los, com o intuito de nos percebermos, curarmos, penetramos de forma eficaz no inconsciente e tratar mais facilmente da psique?

Resignificamos mitos e observamos melhor os deuses e heróis perante uma visão de determinada escola de psicologia. Utilizamos os resultados para perceber melhor o funcionamento de nossos complexos, perceber arquétipos, ou qualquer outra estrutura do inconsciente. É um belo estudo, que vai absorvendo vastos campos de conhecimento, sendo entrelaçados de forma criativa. Perceber os conteúdos psicológicos de deuses esquecidos e aplicar significativamente na cura e desenvolvimento da totalidade.

Toda essa escalada seria belíssima, se por um acaso não tivesse deixado de lado um determinado elemento. Um esquecimento básico, algo que a racionalidade tão cultuada e propagada atualmente fez questão de tornar um paradigma.

A viagem intelectual e erudita humana esqueceu-se de algo básico:

Deuses existem.

Deuses não são símbolos. Existem além de nossa compreensão. De nossa necessidade de esquecê-los. De deixá-los de lado.

Quando um deus é esquecido, não deixa de existir.

Talvez, apareça um questionamento básico em nossas dúvidas a respeito do invisível:

Se uma divindade não é mais lembrada pela humanidade, pode ser que essa exista por motivos os quais não sejamos capazes de compreender.

É hora de despertar perante as visões que temos. O imaginário é apenas a porta de entrada. Além dele, existe muito mais. Além de nossas crenças, de nossas teorias, teses, estudos, erudição, intelectualidade, conhecimento que supomos ter sobre nós, os outros e o coletivo.


O imaginário pode criar uma fortaleza. E essa nos jogar em nossa solidão. Um mundo particular que acreditamos existir, fundamentado em nossos anos de estudos e conhecimentos acumulados. Coisas reais mescladas com nossas conclusões. Conclusões nossas geradas pela visão que temos. Pela forma que somos acostumados a olhar. A forma como somos condicionados a perceber. Percepções geradas pelos métodos que o coletivo nos ensina, educa e diploma.

Vá até a montanha e descubra se o que chamam de montanha é exatamente o que disseram. Podemos ler um tratado sobre montanhas. Estudos acadêmicos avançados sobre elementos ligados a montanhas que seriamos incapazes de compreender totalmente. Somos forçados e ler diversos materiais, conhecer especialistas, freqüentar aulas e seminários a respeito de montanhas. Entretanto, ao chegarmos a uma montanha, podemos descobrir que essa não tinha similaridade alguma com o que diziam sobre ela.

Existem diferenças entre estudar um culto de um povo longínquo através de livros e palestras e conhecermos seus praticantes pessoalmente. Existem diferenças entre conhecer seus praticantes pessoalmente e ver o que cultuam. Existem diferenças entre ver o que cultuam e passar vida inteira, como um deles, sendo parte de tudo aquilo.

Mesmo entre aqueles que dizem cultuar divindades, que fazem suas oferendas, rituais, libações e elevações, poucos são os que escapam dos grilhões do imaginário. Quando sequer vão além e simplesmente o acessam.

Uma evocação não é sinal de contato. Nem tão pouco garantia. Nem o que julgamos sentir, ver, perceber. Não podemos acessar o divino sem vencermos os grilhões que nos prendem nas incompreensões errôneas de quem somos.



O mundo não é o que imaginamos. Nem tão pouco as pessoas que conhecemos. Volta e meia criamos coisas pela incapacidade que temos de nos aprofundar. Criamos, imaginamos, julgamos perceber. Fundamentamos nossa imaginação em justificativas sobre o que queremos de nós, sobre o que queremos dos outros, sobre o que queremos acerca de tudo. Apenas querer não basta. As coisas são o que são da forma que são.

Imaginamos o divino de forma que esse nos auxilie. Imaginamos ter contato com deuses, com anjos, com demônios, com tudo que é possível. Imaginamos que eles influenciam nossas vidas. Que recebemos coisas deles. Que somos especiais para eles. Que não exigem nada em troca. Que basta ser como somos e teremos a sua misericórdia e auxilio. Imaginamos sermos seus sacerdotes. Imaginamos que fomos iniciados em seus mistérios. Que passamos por rituais e práticas que nos colocaram em seu caminho. Que receberam nossas oferendas, que nos ouviram. Que serão a nossa vingança. Que aceitam nossos caprichos. Que temos razão perante todos e que somos sempre auxiliados por isso. Nossas crenças imaginárias são nossas justificativas. São acúmulos de informações inúteis e incompreensões baseadas, como sempre, no ego. Por isso nos irrita tanto quando alguém não acredita em nossa fé. Quando questionam nosso contato. Quando cobram nossos resultados. Quando colocam o dedo na nossa ferida. Quando, por um instante, imaginamos que podemos estar errados. Quando imaginamos que nossas experiências foram falhas. Que não sabemos, apenas imaginamos. Que não vivemos nada, apenas nos enganamos. De uma via inicial, para a via enganosa. O pântano das ilusões que criamos. Não conseguimos transcender os mitos e acessar suas fontes. Não conseguimos compreender suas lacunas, suas incongruências, suas contradições. Assim, caímos no jogo de criar mitos que refletem apenas nossas cascas. Que refletem nossas lacunas, nossas incongruências e nossas fatídicas contradições. Criamos, cremos, nos explicamos. Aumentamos os mecanismos de distorção de quem pensamos ser, em nome do controle. Em estarmos distantes de quem somos e entregues aos descaminhos.

O mundo das cascas é um mundo profano.

Romper as cascas é entrar no Ovo Cósmico do Si Mesmo.

Abraxas




Quando tento lembrar qual foi a primeira vez que tomei contato com Abraxas, vou voltando no Tempo, para quando a minha jornada ainda era um inicio de caminho. A passagem dos anos confirmou-se como sendo um relacionamento longínquo, algo difuso enquanto próximo. Os estudos foram se acirrando e a proximidade tornou-se um fascínio, ao mesmo tempo em que um canal para coisas minhas sempre intactas em meu interior. Procurar conhecê-lo melhor é algo como entrar na vastidão interna, em um local onde as imagens se plasmam com a percepção de algo numinoso e irrequieto.

Abraxas é absolutamente terrível. Assim foi percebido, elogiado, conclamado e contatado. Nele vive a dualidade, não apenas uma syzygya filosófica, ou simplesmente um raciocínio circular procurando o alquímico. Por ele duas camadas de percepção de quem somos vem nos abraçar de forma a transcendermos jogos de conceitos, imposições coletivas, discursos sem sentido e carregados de doutrinas. Tudo que nos expressa tem sempre duas faces, tudo é um hibrido que escancara nossas falácias, fazendo-nos deparar com a inconsistência daquilo que não é nosso.

Estamos além disso. Algo como estabelecer conexões com nossos planos interiores. Nossas percepções sempre distorcidas pelo que não nos pertence. Vamos além de nossas possibilidades e de nossos erros íntimos. Aqueles erros que carregamos, sem nunca dizer a ninguém. Erros vindos da incompreensão de nossa natureza perante um mundo que é totalmente distanciado do que seja algo natural. Erros advindos das distorções das compreensões que nunca fizemos a menor questão de dissolver. Coisas que carregamos no íntimo, que vão nos deixando turvos e perdidos na enorme estrada que parece não ter fim. O caminho parece ser interminável. Parecemos estar perdidos eternamente. Não compreendemos para onde vamos. Nem compreendemos o motivo da estrada. Nem tão pouco procuramos saber qual o motivo de estamos na jornada. Julgamo-nos sempre os heróis de nossa ronda e estamos sempre estendendo a mão para o primeiro salvador que queira se deixar-nos em sua estrada. Perceber-se é nosso, não externo.

Dormimos e sonhamos com nossas ilusões, julgando ter controle sobre nossas parcas vidas. Nada de patente, apenas um dia após o outro, presos a rotina e temendo a passagem cada vez mais veloz do Tempo. Somos consumidos pelas nossas insatisfações e nunca conseguimos vencê-las, percebê-las exatamente, nem tão pouco saciá-las. Não conseguimos nunca saciar a tudo que nos dá sede. Consumimos todas nossas energias perdidos entre as dunas das areias da ampulheta que demonstra o quanto foi perdido. Olhamos sob a escuridão escaldante do vazio de nosso interior, nos seduzindo por miragens. Não há como penetrar nas rochas das paredes do labirinto, que cada vez é mais confuso. Construímos nossas crenças, nosso andar impreciso, procurando as pegadas daqueles que parecem saber onde estão. Andamos dentro do labirinto, encontrando sempre as mesmas pegadas. Que parecem ir para frente, para trás, sem saber onde vão parar. Porem, com um olhar mais atento que nunca temos, percebemos que aqueles que andam o nosso labirinto estão tão perdidos como nós. E o pior, criamos o labirinto e os colocamos dentro. Se tivéssemos essa visão, pelo menos conseguindo interpretar nossos sonhos, naquele momento entre o sono e a vigília, teríamos o desalento eterno.

Quem acorda por um momento sequer, percebe-se como um ovo, onde o embrião anda pelas ruas desertas de sua inconsciência. Um embrião querendo sempre germinar em seu intimo. Um embrião apenas fascinado com as paredes de seu labirinto, de sua casca insana, o germe de sua rotina que consome seus anos, leva a juventude, a maturidade e a velhice. E desaparece perante o grande mistério do desespero inadiável.

Olhar dentro de si, em algum local entre a noite e o dia. Entre o que não vemos e o que devamos encontrar. Algo germina, começa a mostrar sua face assombrosa. Carregado das fileiras do Tempo. Seu número como os dias de um ciclo solar. Sua expressão como aquela que derruba todas as caricaturas dementes que criamos para todos nos adularem. Não existe mais volta, nem salvação. A salvação que nos devora na esperança de uma vida além da Morte. Essa salvação não podemos mais tocar, nem esperar pelo fim dos dias, sendo apenas aqueles que respeitam regras que são impostas pelas gerações das gerações teriam a condenação eterna.

O som do chicotear vai nos levando a degeneração. Não nos enxergamos mais como éramos e não temos mais para onde voltar. A dor de algo que existia em algum vazio interior vai nos tirando a respiração. Não conseguimos mais segurar nas paredes do labirinto, ali não há mais apoio algum. Olhamos para os lados e não reconhecemos mais o mundo. É um local de desespero, a prisão dos seres imprecisos, os que negam a tudo e a si mesmos. Os que não se olham, mas deturpam e se prendem no próprio desregrar.

Algo no interior vai se transformando e circulando, criando formas imprecisas que tomam partes nossas, que geram outras, que redefinem. Tempestades interiores. Locais perdidos por toda parte. Locais que nos chamam a serem visitados, criados, recriados. Locais que sempre foram como são. Que nunca vimos antes e que ao percorrê-los nos mostram imagens nossas, onde nos misturamos com elas e nos tornamos. Despertamos de nosso sonho. Sonho tacanho, triste e ordinário.

Acordamos, olhamos para os lados, percebemos tudo e a todos. Vemos nossa imagem nos espelhos. Começamos a andar novamente, percebendo castelos de ilusões. Mundos inteiros perdidos nas névoas e nas nossas partes intimas. Percebemos tantas e tantas coisas. Compreendemos a tudo. Abrimos os horizontes e vamos andando e apreciando o Sol sobre a nossa cabeça. Ele rege nossos caminhos, nossas vidas, nossos mundos. Todos os que começamos a conhecer novamente. Andamos sob essa luz que começa a trazer um calor extasiante.

Dançamos sob seu vinho delicioso. O caminhar entre os homens e a possibilidade de ajudá-los. A voz interior, a entrega ao mundo, o auxiliar. Os passos se intensificam. Andamos mais rapidamente, vamos sentido um calor incomodo, o olhar pelas paredes que nos cercam. Paredes? Novamente paredes? Estávamos no labirinto? Não havia caído? A luz selvagem do alvorecer cega nossos olhos e ouvimos o carro com o chicotear terrível se aproximando novamente. É o despertar. O despertar do despertar.

O despertar que havia nos jogado nas ilusões. As ilusões mais elaboradas que criamos por pensar que estávamos livres. Que sabíamos alguma coisa. Que estávamos prontos. E assim vamos despertando e despertando e despertando e seguindo de forma infinda por uma jornada rumo a quebrar o ovo. Aquele que se despedaça de dentro para fora e seus cacos são nossa doença espalhada pelo mundo. O mundo a devora e rumina, dando alimento a seus filhos presos naquilo que os enche de desejos: O controle.

Perdemos o controle. Acordamos e acordamos e acordamos. Não há mais controle sobre nós. Nem amarra nenhuma.

O despertar é uma errupção.

E Abraxas corre pelos Céus: Agora podemos ver as estrelas.

sábado, 21 de junho de 2008

É o Tempo quem constrói as ruinas


Dias e noites que não passam. Dias e noites que se vão com tanta velocidade. Momentos fugazes de felicidade. Horas torturantes intermináveis. Pois que do que nos é tão agradável, nos é tirado com tanta sofreguidão e aquilo que não desejamos, nos toma como que por séculos. A alegria e o que nos é agradável se esvaem. O que não suportamos parece não ter fim. O ritmo do relógio implacável consumindo e deixando-nos, os anos que se vão e não voltam. Quando começamos a perceber melhor os ritmos da vida, é quando parece que não teremos tanto ainda para desfrutar. A cada ano a velocidade é maior. A cada crise o termino parece não chegar nunca. E quando entendemos o que temos nada mais é como se foi. Foi-se, deixou-nos, não faz mais sentido. A descoberta de nossos sentidos parecem sempre vir quando não é mais necessário. E tudo que tivemos já se foi. Amanhã é outro dia, ontem já se foi. Tropeçamos nas horas, andamos sobre elas olhando o mundo por baixo. Nunca chegamos ao topo da montanha, que cada vez mais parece distante. Ali em cima, o cume que temos tão pouco Tempo para conquistar.

Esquecemos de nós mesmos enquanto somos consumidos pelo passar das horas. Não tentamos olhar para o que se movimenta diante de nossos olhos. Tudo mudando lentamente, como se não parasse nunca. O movimento de cada instante que se foi e o que virá sem razão de ser e de nos percebermos diante do cavalgar incessante. A água que passa nos rios, que não voltará ali jamais. Aquilo que perdemos e que não tem volta. Aquela necessidade de termos vivido melhor, de termos aproveitado ao máximo o que não teremos nunca mais novamente. O que houve no ano passado, que se torna ano retrasado, que se torna na década passada. Tudo se esvai cada vez mais rapidamente. O espelho que não nega que já não somos mais, que não seremos novamente, que mudamos nitidamente se nos observamos a cada nova ruga e a cada cabelo branco, eternamente nos poucos anos que temos para fazer tanto. O tanto que sempre quisemos ter e o pouco que nos foi permitido. O tanto que conquistamos e as vitórias maravilhosas que vieram e o até onde podemos chegar. Ainda conquistaremos? Estamos perdendo? Perderemos? Chegaremos ao ponto onde podemos? Teremos Tempo para tanto?

O que aprendemos a cada ano, que se renova nas esperanças do próximo período. O desejo da eternidade. O medo do futuro. A insegurança com o passar dos dias. Aquilo que irá vir, inadiável, que tanto tentamos evitar. A agressão das horas para o que é inevitável. A tentativa de parar mundo para que não aconteça o que está programado e é inevitável. A sensação de que o reinado que temos irá terminar. A Morte que cavalga nos mares dos ponteiros implacáveis, esperando nosso instante final chegar. A inevitabilidade, a vulnerabilidade, o incessante, o impossível de se deter. É a luta contra aquele que a tudo consome. Impossível de ser domado. Não há como parar, interferir. O que há de ser, virá. Nosso final está traçado ao golpe da foice implacável. Todo o resto é incerto, impossível de se prever, de sabermos se os oráculos estão corretos. Sofremos a cada noite mal dormida, orando por mais. Sofremos a cada instante, por seu final. Que cesse logo, que venha antes, que aconteça. Que alcancemos logo, nos entregando a ansiedade pelo que é nosso e bom e que acontecerá. Ficamos ansiosos pelo que não ocorre nunca. Pelo que está as nossas portas de ocorrer e não podemos evitar. Medo do que virá. Insegurança. O passar lento. A velocidade que nos devora. A lentidão que nos mastiga. A mente que dispara, o descontrole perante momentos infindos, fugazes, o que aconteceu e não há mais como mudar. O momento que marcou-nos para o sempre, pensado e remoído por dias e dias e dias. Os anos passam e aquele segundo crucial que está preso em nossos devaneios infindos. O Tempo e a Mente. O Tempo e a Loucura.

Apenas mais alguns minutos para podermos respirar. Rápidos e já se foram. Não foram o suficiente. A nossa velocidade que nos deixa com liberdade pelo resto de um período. Aproveitamos nossas horas. Economizamos para todas as atividades. Até planejamos o que fazer. Temos sempre de utilizar a inteligência para não deixar nada de lado. Para não perdermos o nosso Tempo. Sempre atentos a Ele. Ou Ele nos faz lembrar o que perdemos. O que ceifou e não teremos mais.

Ele que controla nossos ritos de passagem. Que nos torna adolescentes. Que nos torna adultos. Que nos torna maduros. Que nos trás a velhice. Que ajuda a criar nosso ego, no momento certo em que a idade nos joga rumo ao mundo. O tempo em que já somos grandinhos o suficiente. O momento em que aprendemos a dizer sim a todos. O instante precioso em que aprendemos a dizer não a todos que nos cercam. Aprendendo e sempre estando atento a Ele. O Tempo não para, não dá outra chance. Mesmo outra chance, é outro evento com todos os seus elementos próprios. O que se foi tornou-se memória e foi guardado em nosso corpo. Desapareceu em nós. É o Tempo quem trás de volta, dos submundos de nossas profundezas de nosso esquecimento. O Tempo consome, mas não esquece. O Tempo leva tudo embora e trás todo o esquecimento. Os anos que passam, o que se foi, nos deixou, desapareceu, não existe mais, nunca houve. No Tempo certo, tudo vem à tona novamente.

Aqueles que nos deixaram, faleceram, não estão aqui. Aqueles novos que aparecem. Nosso alvorecer, nosso entardecer. Tudo tem significado perante o quão curta é nossa existência. Que devemos olhar, perceber, economizar, cristalizar, amadurecer, abandonar, deixar pronto para renascer. Parir-se constantemente, a cada ciclo novo, em que nos unimos totalmente, em que tudo está circulando e pronto para os novos instantes a serem construídos, estruturados. E para novamente olhar, perceber, economizar, cristalizar, amadurecer, abandonar, deixar pronto para renascer. Os ciclos são eternos, nós somos a sua manifestação. Somos neles manifestados, somos os próprios ciclos incessantes. Somos quem somos nos ciclos.

A dualidade do Tempo. Um tic e um tac. De um dual ao outro. De uma ponta a outra. De cá, até lá. O Velho, o Jovem. O Jovem, o Velho. O Velho ensina o Jovem. O Jovem ensina o Velho. O Jovem se torna Velho.O Velho se torna Jovem. Ambos um só. Duas idades, duas faces do Tempo, uma olhando para cada lado. Nossas dualidades expostas com os anos. Os anos expostos em nós. Em nossos rostos, em tudo que somos, em tudo que fomos, em tudo que seremos. Em nossa memória, em nosso esquecimento. No misto do que sabemos de nós, misto do lembrar e do olvidar. O amalgama do controle e a da disciplina que as horas nos impõem, com o descontrole que nos perdemos sem nos percebermos no Tempo.

O que se passa nos faz lembrar o último ciclo, a ultima transformação, o último esquecimento. Ainda lembro quando era aquela criança que hoje vive em mim, mas não é o que sou. Fui muitas coisas durante muitos períodos. Deixei de ser tantas outras em tantos outros movimentos. A história da vida de cada um se traduz em diversas histórias de diversos seres que viveram em diversos tempos diferentes. Um dialoga com o outro por memórias, por sentimentos, por estar novamente lá ouvindo determinada música, sentindo determinado cheiro, passando em determinado local, vendo determinada fotografia, sentindo determinada sensação, vendo determinado rosto parecido, com determinado atavismo que trás tudo de volta. É estar lá novamente e ser novamente quem se era, mesmo que o corpo não seja mais o mesmo. É lembrar do que houve da forma como vemos hoje, diferente de como vimos ontem. Mudar o passado com as percepções de agora, ou de não aceitar mais como foi exatamente, ou simplesmente não lembrar corretamente.

Todas as histórias de minha vida se conectam em uma costura que cria uma teia, como um tecido enorme que se relaciona com o tudo que houve e que existe agora. Tudo culmina no presente que é fugaz e é uma história atual que será vivida e terá outros nuances num futuro incerto. Funciona de formas imperceptíveis quando não temos a percepção correta do Tempo, nem de quem somos. É um colorido novo a cada lembrança. Um mudança aqui, outra ali. Uma interpretação sendo criada e recriada quanto mais sabemos da vida, quanto mais temos maturidade, quanto mais sabemos quem somos realmente.

Nosso passado é aquilo que temos de valorizar. Mas muda constantemente. Pois a cada olhar ali, já mudou, se mesclou e foi devorado, digerido e regurgitado pelo Tempo sempre insaciável. Devora nossas crianças, devora a quem somos, nos vela, nos leva ao seu estômago, onde somos regerados, passamos por nova gestação e vivemos renascendo, mesmo sem perceber. Mesmo sendo um leve voltar, mas sempre a um novo ciclo. Somos e não somos. O que fomos não mais somos e viremos a ser outros em pouco tempo. Assim, sempre será. Sempre será. Sempre será.

No enorme mecanismo do mundo, o enorme relógio que é o mecanismo de todas as coisas. Esse que funciona nos levando entre as engrenagens, nos fazendo funcionar como máquinas que não se olham. Apenas nos encaixamos no movimento mecânico e implacável.

O ego que ganhamos é parte desse mecanismo. É intrínseco a ele. Na idade certa fomos entregues a enorme roda que dá o tic-tac a sociedade. No instante certo, o Self pode nos chamar. O momento exato, o Tempo Correto. Um dia, em nosso alvorecer, confiamos que deveríamos ter uma máscara ajustada na face, colocada com precisão automatizada. A máscara que se ajustou em todos os mecanismos de nossa composição, maravilhosamente desenhada e com moderníssima engenharia. Encaixados nos motores da família, onde produzimos o que podemos em nome do bom funcionamento da máquina mater da sociedade. A tradição familiar nos colocou perante a operante sociedade, sempre sendo ajustada por todos os lados, pois nunca é perfeita e sempre precisa de reparos. Mecânicos que criticam seus defeitos e lutam para ajustar seus mecanismos com o funcionamento total. Técnicos que mantém o enorme funcionamento sem paradas preventivas. A imperfeita sociedade que funciona corretamente, nos absorvendo em totalidade. Somos essenciais para seu funcionamento. Mas somos descartados com facilidade.

A célula mater da sociedade

Nossa máscara é o elemento conectivo com o sistema principal. Sem ela, não podemos colaborar com o seu crescimento e melhorias. A máscara que foi esculpida pelos ventos intempestivos do Tempo. Nossas melhorias só vêm com o desenvolvimento do elemento mantenedor da máscara: O ego. Sem ele, o mecanismo não faz sentido. Pára de funcionar facilmente. Pois é o ego que é ligado em nossas baterias, transmitindo nossa energia psíquica para o grande todo que funciona com inegável perfeição. Por mais imperfeita que pareça a sociedade, sua eficiência é implacável. Se assim não o fosse, as mascaras cairiam das faces sozinhas. E todos estariam desconectados do sistema que nos faz sermos apenas e tão somente, condutores de energia, gastando nossas baterias com o que não interessa. Devotados apenas ao enorme e devorador mecanismo.

Um dia, lá atrás, aqueles que nos nutrem quando frágeis, nos ensinaram que devemos nos conectar. Que a vida fora do enorme e imperfeito mundo é impossível. Que podemos melhorar o seu funcionamento, nos dedicando, sendo responsáveis, bons, educados e civilizados. A máscara é colocada no rosto, os cabos colocados nos conectores universais. O nome disso é domesticação. É um mal necessário, conforme dizem, pois não podemos viver por nós mesmos, nem pensar por nós mesmos. O nome daquilo que nos ajusta ao geral, nos colocando prontos para girar com os mecanismos, se chama educação. Depois procuramos nos adaptar e ter sucesso em ser um bom mecanismo. Somos falsos conosco e com tudo que nos cerca. Afinal, a máscara é só um elemento de condução de energia e de controle remoto de nossas engrenagens. Somos cada vez mais mecanizados, perdendo a noção da liberdade e nos inserindo numa teia de relações energéticas, de desejos, sentimentos e emoções que nos dominam e apagam qualquer forma de procura por sair desse movimento insano.

Mas o Tempo é implacável com a Máquina enorme do mundo. Vai desgastando as engrenagens. Mostrando que não somos eternos e que nosso funcionamento é sempre imperfeito. Aquele que nos deu um ego em formação, que vai gerar máscaras conectoras com a alienação, é quem a retira de nossa cara com violência no movimento implacável de sua Foice feita de seixo vindo do seio de Gaia. Ao pó retornaremos. A enorme máquina funciona muito bem sem nós. Tudo segue seu curso como se nunca houvéssemos existido. Não somos necessários a sociedade. Se fossemos, seriamos eternos. Se a sociedade nos fosse necessária, não nos obrigaria a deixar tudo o que temos em nome do coletivo.

Os anos passam e vemos o quanto fomos dilacerados com enorme violência. A cada década, algo nos é retirado. Parte de nossa vitalidade, de nossas crenças, de nossas dúvidas, do que sonhamos ser. Os sonhos nos devoram ao nos deixarem e irem para as cavernas dos pesadelos. As catarses começam. Nunca param. A angústia, seus ciclos que vem e vão. As respostas que não temos de nós. A dependência de crermos em algo. A imaginação do nosso contato com o divino.

Imaginamos o que cremos. Cremos em nossa imaginação. O Tic Tac nos deixa mais maduros e nos coloca na busca. Ou ofusca nossos olhos e devora nossas esperanças. O medo trás de volta a crença quando sentimos o fim. Quando estamos em crise. Nunca quando temos de procurar sempre e a cada momento. A pústula que cresce em nosso interior, corroendo-nos por trás da máscara é cada vez mais forte. Não há fim para sua insaciedade. Os anos passam e nada resolve. Os anos passam e as oportunidades se vão. Os anos passam e passamos com eles. Deixamos partes nossas no caminho. Nunca paramos para recuperar os cacos. Nunca, de forma alguma, paramos para pensar no caminho que se foi ou como esse foi. Não conhecemos a quem somos. Não fazemos sentido perante o que acontece e nunca pára. Não conseguimos nos centrar conectados em um mecanismo que nos devora. E lutamos para manter as máscaras no rosto, sem nunca transgredi-las. Sempre devotos de suas formas e seus enfeites. Mostramos aos outros o pouco que conseguimos. Choramos nossos mortos. Choramos a nossa morte a cada instante.

Esse é o passar dos dias. A luta para nos tornamos mais velhos. A luta para nos tornarmos mais novos. A luta contra a tenra idade. A luta contra a idade avançada. A luta para termos mais tempo. A luta para que o tempo passe mais rápido. A violência dos mecanismos do mundo. O relógio implacável, a sociedade mecanizada e dominadora, nossa sistematização e perda inconseqüente de consciência, percepção, visão, fenômeno de Si Mesmo. Não ouvimos nossas vozes reais. Apenas as pústulas das feridas imortais que criamos em nós e transmitimos a nossos filhos, educados para seguirem em nossa miséria geracional.

Um dia o Self é ouvido e se derrama pelo corpo. Preenche nossas lacunas, o vazio interior. O interior deixa de ser um local insondável, um portador de vozes dementes. Tudo se une, nasce outro ser, parido do fim do desespero sem sentido. Focado em outras formas, outras percepções, outras loucuras divinas, na embriagues sagrada. Olha a tudo e vê sentido em tudo. Na falácia do mundo, na sua podridão, na sua ilusão. Vencemos a própria ilusão, o castelo que criamos para nos alimentar quando olhamos a máquina dos desejos da sociedade. Não precisamos mais do ego para nos compensar perante o todo. Não precisamos mais de papéis, não temos mais auto-importância. Somos relativos a nós e nada mais. Nossas necessidades são apenas nossas, de ninguém mais. Não nos são mais impostas, podemos escolher o que queremos. Lembramos o que queremos realmente. Do que gostamos, do que admiramos, do que faz sentido para apenas nós e ninguém mais. Estar só basta. Estar por si basta. Ser basta.

E somos. E nos esbaldamos.

E então, olhamos para o futuro. E vemos que apenas começamos. Até iremos com o Tempo que nos resta?

O Tempo é implacável.

Porém, estamos agora unificados.

Um só passado. Uma só vida. Não antes e depois. Não diversos ciclos. Os sentidos se fazem, as percepções são plenas, pois estamos diante de quem somos. Entendemos a fina linha que vai de um ciclo a outro. De uma vida que tivemos a outra. De um momento com todos seus elementos, para o próximo. É o fim das ilusões. É o inicio. Apenas o início. Um nascimento, mas ligado a todos os outros. O recriar de si mesmo, através do Self.

O Tempo faz sentido.

E nos pergunta: Qual é o nosso objetivo?

Nunca antes tanta disciplina. Estamos agora centrados. No centro do caminho do eterno vir a Ser.



Quem foge da vida com medo da velhice, encontra invariavelmente a mesma foice.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Espelhos e o Louco

Máscara de Carnaval em Veneza



Nem sempre ao olharmos nosso reflexo no espelho, vemos o que é real. Vemos um produto criado para ser mostrado. Um produto que é a síntese de vários produtos vendidos pela sociedade de consumo. A união desses elementos é uma forma de agradar e conseguir um objetivo. O principal deles é a aceitação. Sermos aceitos primeiramente pelos pais, depois a uma tradição familiar, pelos que estão próximos e por fim, pela sociedade em geral, procurando os objetivos gerais impostos como padrões de mercado. O custo de gerar esse produto é relegar ao esquecimento aquilo que verdadeiramente temos. Prefiro comprar algo externo a mim, a utilizar o que tenho à mão.

Criamos uma imagem agradável a ser mostrada a todos. E quanto mais interessante ela se torna, mais a embelezamos. Cultuamos a máscara. Deixamos de lado o que realmente somos em nome do que nos agrada: O reconhecimento e a atenção alheia. Essa máscara implica em um papel a ser vivido. Em recolher o roteiro conforme modelos disponíveis, todos literários, mitológicos ou imaginários. E depois viver esse roteiro, que nos leva a deixar de lado qualquer possibilidade de realizar a aquilo para o que fomos moldados. Assim, o que realmente somos é substituído por algo que reina sobre nós. O ego se veste desses componentes e os usa para dominar nosso destino. A máscara cênica domina o ator, de forma que não se consegue escapar do personagem e continuamos atuando o papel pelo resto de seus dias. Os papéis são trocados por conveniência. O coitado, o responsável, o herói, o marginal, o incompreendido, o sofisticado e o mais complexo de todos: O sábio.

Entretanto, a máscara se faz necessária ao convívio social. É através dela que vamos manipular a sociedade e não sermos manipulados por ela. Não sermos vítimas dos papéis, mas senhores e manipuladores deles. Para essa transição, aparece a figura do bobo da corte, o Louco, o trickster, o Heyokah.




Heyokah



Quem sonha com os pássaros do trovão (ou Wakinian), ou com o trovão e a tempestade, pode se tornar um Heyokah na tradição Lakota, a figura do que conhecemos em nossa sociedade como o palhaço. O Heyokah está acima da simples caricatura. Ele é o bobo sagrado. Tem atributos sobre-humanos e é aquele nos previne das ações funestas do coyote. Rir de si mesmo, inverter os padrões da tribo. Vestir-se ao contrário, enxugar-se antes de se banhar, dormir durante o dia e assim por diante. Heyokah é como o sátiro, o desconcertante, aquele que ensina pelo rir, pelo absurdo. Suas lições são cortantes, pois tiram do comum, alteram a percepção viciada por aquilo que chamamos de correto. Vai além da estagnação, da calcificação, das tradições, pela seriedade e principalmente, pela auto-importância. É a loucura demonstrando o caminho. É a loucura disparatando o que entendemos como normal. A insanidade divina. A caricatura da máscara zombando da pompa.

Em síntese, o Heyokah é alguém que tem habilidades para com a tempestade.


Algo semelhante como o traçado pelos componentes da escola Cínica na Grécia. Os Cínicos defendiam a ausência do supérfluo em nome da autarquia, ou seja, o domínio sobre si mesmo. Diógenes, principal discípulo de Antístenes possuía apenas uma túnica, um cajado, um embornal de pão e vivia em um barril. Assim como invertia as ações da cidade, caricaturava, zombava e levava ao choque.



Diógenes de Sinope

Outro exemplo é o dos dervixes da tariqa Bektash, que mesclam situações cômicas e até desrespeitosas para ativar percepção. Como ir as mesquitas e fazer orações bêbados, sem ablução, ou emitindo sons corpóreos “constrangedores”. Todas situações reprováveis aos olhos dos muçulmanos ortodoxos. O objetivo mais exato é chamar a atenção ao movimento repetitivo e desconexo das práticas islâmicas.

Dionísio, o deus das máscaras, era acompanhado por um cortejo composto por Pã, Príapo, Sileno e dos Sátiros. Havia a alegria e o desconcertante, na indução do êxtase, do selvagem, da transgressão. Dionísio o deus da loucura. O Louco Divino, que quebra os padrões da religiosidade, devolvendo ao estado selvagem e natural.

Quando existe a conexão com o Si Mesmo, o Louco Divino começa a se manifestar e demonstrar a inexorável fragilidade da máscara, o domínio inconseqüente da persona, o controle que a auto-imagem impõe ao indivíduo, o tamanho do apego pelo externo, o ridículo pelo qual vivemos e nos vendemos. A auto-importância começa a se tornar um incomodo e o reflexo do no espelho começa a ser agressivo. Ou o Heyokah vence a máscara e nos torna senhor dela, ou o coyote está pronto para nos derrubar e colocar em perigo.

A máscara deve apenas existir como jogo de cena e não como domínio. Deve demonstrar o mistério para o mundo e a roupa invertida do Heyokah. Sacrificamos nossa auto-imagem, assumimos quem somos. O inimigo do Deus é sacrificado. Olhamos a verdadeira imagem no espelho. Da sátira para a tragédia.

A máscara não se entrega facilmente. Entretanto, a desconstrução já está em curso. Até o momento em que o domínio sobre a persona torna desconstrução em revisão, no olhar correto, na percepção verdadeira do fenômeno do Self.

Tornar-se senhor das máscaras é deixar que o Louco conduza a jornada. O Louco é a conexão com o Si Mesmo, é a chave para o nascimento do Eremita. A assunção do Puer é o começo da jornada. O Puer não é a liberdade, ou temos aí a repetição do vôo de Ícaro. O Puer é o início da manifestação do Sênex. Puer-Sênex são dualidades, misturas, syzygyas. Existe aí o domínio, o controle, a soberania. O dançarino divino como senhor de seus gestos, expressando a dança cósmica em cada ato.

O Puer é o Louco. O Sênex é o Louco.

Cada ato deve ser divino e é conexão. Cada ato com domínio próprio é o despertar eterno. É o enxergar do infinito. É a dança que distorce o que chamamos de realidade. Sem domínio e conhecimento próprio, não podemos ter a percepção correta. Não podemos ver o mundo que se esconde dentro do mundo. Não vemos o visível.

É na visão da águia que existe a manifestação de Wankan Tankan, o Grande Espírito.

Quem vê a si mesmo corretamente, vê ao outro corretamente, vê o mundo corretamente, conhece a própria jornada, toca nas próprias marcas. Torna-se manifestação do Si Mesmo. Muito além de apenas a si mesmo.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Labirintos de Espelhos



A luta com o Si Mesmo



Em nosso primeiro trabalho, o Velho da Montanha me mostrou um estado absoluto de encontro, uma imagem de percepção como um espelho daquilo que existe dentro de mim. Nem sempre percebemos o que está aqui dentro, pois é mais fácil estar perdido no enorme labirinto de espelhos, que também chamamos de psique.

Assim termina Jorge Luis Borges o conto “A Casa de Asterion”:
- Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu – O minotauro apenas se defendeu.

O labirinto é sempre um acesso, uma entrada, um local para onde vamos procurar um encontro. Assim como em Creta, existia um labirinto no Necromanteion, o local do oráculo dos mortos. O centro do labirinto é o local do acesso a si mesmo.

O labirinto também é a imagem da cidade. A cidade também é uma das referencias à Alma. Trafegar pela alma é andar pelo labirinto. Estar ali sozinho é estar sujeito a ser destroçado pelo Minotauro. Andar com a senhora do labirinto, Ariadne, é ter o fio que permite encontrar ao Si Mesmo e conseguir o retorno seguro.

O labirinto é pleno de caminhos e encruzilhadas. Composto pelos seus limites, com encruzilhadas em forma de “T” e encruzilhadas em forma de cruz. Um composto de cruzes e suásticas. Habitado por um ser meio homem e meio touro, de forma humana e bestial. O touro de Dionísio, que muitos crêem ser um deus cultuado em Creta. Dionísio que é apontado (juntamente com Hécate) como um deus que leva à bestialidade e à loucura.

Asterion, em grego ou Asterios, em latim, é o nome ao mesmo tempo do Minotauro, como de um rei de Creta. Asterion, ou “Senhor das Estrelas”, casou-se com Europa, amante de Zeus e criou seus três filhos Radamanto, Sarpedon e Minos. Existem versões onde o rei Asterion e o Minotauro são o mesmo ser. Minos viria a ser o sucessor de Asterion no trono de Creta. Em outro mito, o Minotauro é filho de Parsifae e de um touro que Poseidon envia a Minos, para ser sacrificado.

O que nos reserva o centro? O que nos reserva o centro do labirinto, provável morada de Astérion?

O labirinto é algo como o nó górdio. Um emaranhado impossível de ser decifrado. Conta o mito que Dédalo, brilhante construtor, ficou preso no próprio labirinto que criou a pedido de Minos, para aprisionar o Minotauro.

A psique não desvendada demanda sacrifícios e esconde seres como o Minotauro, como no mito em que Minos exigia que anualmente sete rapazes e sete moças fossem entregues para o sacrifício no labirinto. Como no texto de Borges, o Minotauro esperava seu salvador. Dessa forma, esse ser aparece como uma das representações do Si Mesmo, aquele que vive no centro do labirinto.

O Minotauro também é muitas vezes associado a Dionísio, deus do êxtase e portador das máscaras. As máscaras como acesso, semelhantes ao labirinto.

Ícaro, filho de Dédalo, também fica preso no labirinto. Junto com o pai, com asas feitas com cera, escapa voando. Mas, extasiado com o vôo, vai rumo a Hélios, o Sol. O calor derrete suas asas e ele cai no mar. Quem “escapa” do labirinto encontra outros perigos.

O centro é o local onde estaria localizado o Minotauro, a figura bestial, envolta na “sombra” do labirinto. Aparece a imagem que o Velho da Montanha me passou. Estar no centro, ser como uma rocha ou uma montanha, imóvel, centrado, localizado onde tudo converge. A visão total é alcançada por quem chega ao topo.

É claro que a rocha ou a montanha são símbolos pessoais. Poderia ter utilizado a imagem do Unicórnio, ou de violentos Dragões Telúricos.

Há muito tempo o Príncipe e a Princesa me disseram que isso se tratava do “ponto de convergência”. O ponto mais eqüidistante de tudo que somos. O local central de todo o nosso “tempo”, passado, presente, futuro, num mesmo instante. Todas as nossas sub-personalidades, em uma só. O centro das máscaras de nossa persona. O centro de tudo que falei. O “ponto de convergência” pode ser encontrado em diversas culturas, religiões ou cultos. Não é algo exclusivo, mas algo comum a todos que trafegam pelos corredores do próprio labirinto, parte do labirinto universal. O ponto de encontro de todas as almas. Uma cidade de símbolos, de locais, de passagens, de elementos infinitos. Um enorme jogo de espelhos cósmico. Aquele que é regido pela Senhora de toda a psique.

O fio de Ariadne não é apenas um fio, é o desenrolar de quem somos, o caminho que nos leva ao Minotauro e a trilha que nos define. Somos o caminho que trilhamos, todas as marcas que recebemos com ele. Somos as marcas que nos impelem a trilhar o caminho. Não existe diferença entre nós e o caminho. Entre nós e o fio de Ariadne. Ao encontrarmos o Minotauro, esse fio se torna nossa placenta, o sinal e a marca de que nascemos. A Senhora do labirinto se torna a parteira de nossa alma. Nascemos novamente, como filhos de uma Mãe que nos fez lutar contra o nosso Eu Mesmo.

Nada é dado gratuitamente. Quem vence o Minotauro, conquista a Si Mesmo. O Si Mesmo que emerge das sombras pelo êxtase, a tragédia dionisíaca. A omofagia de quem não somos. Criamos o nosso próprio alimento. Criamos nossos próprios medos, inseguranças e demônios pessoais. Eles serão sacrificados no altar do centro. Algo como o despir das cascas que nos levam à descida ao Mundo dos Mortos. O consultar do Necromanteion, o encontro com o oráculo, o oráculo dos nossos próprios mortos. Descer o seu labirinto, até a escuridão e ouvir as vozes dos que já se foram, mas estão nos indicando o caminho.

O encontrar do Santo dos Santos, um templo onde o local mais sagrado e fechado, destinado ao mais puro dos sacerdotes é onde existe um espelho. Nesse momento nos fundimos à imagem. E refletimos quem realmente somos. O Selvagem total e completo. Algo destinado apenas ao Guerreiro Perfeito.

Ali, num local onde vemos tudo. Não existem vários de nós, apenas um. Não criamos partes de nós identificadas com mitos, ou contos, ou lendas, ou algo imaginário. O centro é o real. O labirinto é de espelhos. Em cada caminho de nosso labirinto, reflete uma parte desse centro. Em todos os reflexos, um caminho tortuoso e impossível de se traçar. A cada ponto, o risco do Minotauro. Quando se chega ao centro, encontra-se o Eu Mesmo, antes de tudo Bestial.

Sem estarmos no centro, ou sem conseguir contato com ele, estamos perdidos pelos corredores, decorados com machados duplos.

No centro, vemos todos os reflexos possíveis do Eu Mesmo.

Os reflexos dos reflexos, dos reflexos, dos reflexos.

Os reflexos são infinitos.




Site com o texto completo de “A Casa de Asterion” de Jorge Luis Borges:

http://www.alfredo-braga.pro.br/biblioteca/asterion.html

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Espelhos Celestes




De Theia, a divina e Hypérion, a luz, nasceu Eos, a Aurora.

De Crio e Euríbia (ou de Gaia e do Tártaro), nasceu Astraeus, o alvorecer das estrelas.

Eos unida a Astraeus, teve vários filhos, entre eles:

Phainon, o brilhante.
Phaeton, o claro, luminoso, alegre (também dado como filho de Eos e Cephalus, que não deve ser confundido com o filho de Hélios, o Sol).
Stilbon, o “respingador”.
E Pyoreis, o de cor de fogo, o inflamado.

Eos também se uniu a Cephalus e concebeu a Hésperos, o Oeste, que os romanos chamaram de Vésper.

Os titãs Crio e Euríbia conceberam a Phosphoros, que os romanos chamaram de Eosphoros.




Phophoros, ou Eosphoros, ou Lúcifer




Esse é o mito do nascimento dos planetas, palavra que significa “errante”, pois ao contrário das estrelas “fixas”, eles se movimentam nos céus.

Com a influência dos Persas, os gregos absorveram a astrologia mesopotâmica e associaram os planetas aos deuses. Assim:

Phainon se tornou Cronos, inspirado em Ninurta (Ninib).
Phaeton se tornou Zeus, que assim se sincretizou com Marduk.
Pyroeis torna-se Ares (ou até Héracles), assim associado com o complexo Nergal.
Stilbon se torna sagrado a Hermes, ligado a Nabu (Nebo).

Os gregos aceitaram que Hésperos, o do anoitecer e Phosphoros, o do amanhecer, seriam o mesmo planeta e os consagraram a Afrodite.

De grande importância nesse esquema teve a influencia de Platão, preocupado com o ateísmo. Dizia ele que se os deuses estivessem visíveis nos céus, ninguém poderia duvidar de sua existência. Isso é parte de um enunciado de uma complexa religião sideral, onde as almas que alcançavam a salvação se tornavam estrelas.

Os romanos sincretizaram Cronos com Saturno, Zeus com Júpiter, Ares com Marte, Hermes com Mercúrio e Afrodite com Vênus.

Mais tarde, sistematizada por Ptolomeu (e outros), que foi influenciado pelo aristotélico Alexandre de Afrodisia, vem a astrologia que se torna extremamente popular. Antes, havia o recurso aos oráculos, como o de Delphos, ou o Necromanteion de Ephyra, o oráculo dos mortos.

A astrologia se constituiu em uma tradição, de certa forma questionável. Nergal, deus da guerra, do submundo e da pestilência foi conhecido pelos Hurritas e Hítitas como Aplu. Como sabemos, os hititas influenciaram fortemente a religião grega. Aplu pode ser o antigo nome de Apollo. Embora entremos nos domínios da mitologia comparada, Apollo foi também um deus da pestilência e do submundo, sendo que um de seus animais era o corvo. Os gregos o identificaram fortemente ao Sol, tanto que mais tardiamente tomou lugar ao culto de Hélios em algumas regiões, cada vez mais identificado com o Astro-Rei. Nergal também é algumas vezes identificado com Shamash, o nome acadiano do deus-Sol, que corresponderia ao sumério Utu.

Essa ligação Guerra-Pestilência-Submundo é parte dos elementos tanto solares quanto de Marte. Mas aí estamos atribuindo significados. Dessa forma, consigo influir na fórmula de que Dionísio seria Hades, proposta por Kerényi. Consigo embutir que tanto Apollo quanto Dionísio se encaixam como senhores do submundo.

Significados, significados e significados. Teorias ligadas aos significados.

E é aí que nasce o ponto ao qual quero discutir: Planetas como espelhos. Os céus cheios de significados. Planetas envoltos em diversas especulações, associações, divindades. O sujeito que cria seus objetos e os nomeia. Eventos influenciados pelos observadores.

Toda a teoria de significados planetários pode ser desconstruída e questionada. São corpos celestes que recebem o que queiramos dar. Uma sala de espelhos celeste. A astrologia calcificou seus significados e aplicações em uma tradição. Essa tradição funciona, efetivamente. Mas funciona a partir de quais parâmetros? Essa tradição é tecida pela realidade? Os significados dados aos céus são reais? Ou fazem parte da mente coletiva? Estaremos apenas reverberando pensamentos coletivos? A astrologia é capaz de observar a essência de cada um de nós? Estamos olhando para a Essência, para a Alma, para a mente?

Se estamos reverberando pensamentos coletivos, seriam os comportamentos das pessoas ligados a eles? A astrologia reflete a essência ou a máscara? Os planetas apenas refletem o que vemos, ou impomos o reflexo a partir do que parcamente compreendemos ser? Aquilo que compreendemos ser é o que podemos chamar de Essência?


Sophia



Dentro dessas questões, estamos acessando a Sophia? Existe Sophia na astrologia? Podemos chamar de Astro Sophia? Quando assim o digo, não estou propondo uma astrologia filosófica, pois o filósofo é apenas um amigo, ou assim o pretende ser, de Sophia. Estou falando de contato direto, o acesso, a percepção, os seus influxos. E os produtos do que os filósofos falam, muitas vezes parecem muito distantes de Sophia. Aqueles que dizem ser seus amigos sempre divergem em seus modelos e teorias. E Sophia é apenas e tão somente uma.

Olhando para os planetas como reflexos daquilo que quero significar, tento dar um sentido ao universo tendo como centro de eu mesmo. Posso assim fantasiar, me iludir, criar mundos, com maior ou menor sofisticação “simbólica”, intelectual ou filosófica. Estarei criando um castelo de cartas, todas com diversas significações tarológicas avançadas. Estarei tentando compreender o mundo a partir daquilo que flui de minhas indagações e investigações.

Porém, nada disso parece refletir a minha Essência. Os símbolos são o que são, não o que o declaro que sejam. Observemos primeiro o que são, antes de falar sobre eles e achar o que sejam.

Por muito tempo, advoguei que símbolo não tem significado. Um símbolo aponta. A experiência que temos com o que vem dele é o que conta. Essa experiência vem como um fenômeno. E a percepção parece ser absolutamente subjetiva.

O subjetivo aponta para o sujeito.

O sujeito deve estar ligado para com a sua Essência. Ou o subjetivo será moldado pela mente, por seus jogos e seus caprichos. Ou olharemos para o objeto e vemos o sujeito. O objeto é o objeto e não o sujeito.

Olhar para o espelho dos planetas é refletir o que impomos a eles.

Tornar-se o espelho dos planetas é refletir o que eles são.

Tornar-se o espelho dos espelhos.

O reflexo do reflexo do reflexo. Os reflexos são infinitos.