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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Sementes




Certa vez, li em um texto de uma amiga que já se foi, uma frase que achei muito interessante:

“Parar de lutar com o mundo para deixar de lutar consigo mesmo”.

Essa foi uma amiga que se decidiu por se aproximar devido a um texto meu. Eu havia escrito em certa ocasião de minha vida, quando resolvi dar uma resposta para algo que ocorrera em determinado momento, com relação a diversas pessoas.

Há algum tempo fui reler esse material. Lá se foram seis anos desde sua composição. E lá no meu texto, está a frase:

“Parar de lutar com o mundo para deixar de lutar consigo mesmo”.

Foi uma semente. Uma semente que na época lancei sem compreender exatamente o que expressava ou o quão importante seria no futuro reencontrar.

São as sementes que o Self planta em nossa via. Uma semente que fez sentido para uma pessoa que me ensinou diversas coisas e me aprofundou em tantas outras. Uma semente que hoje fez sentido quanto a vários outros elementos.

Nem sempre compreendemos algo em seu nascimento. Apenas depois que reverbera. A frase foi o inicio de algo, que hoje se findou. E é a semente de algo que vários anos depois consegui finalmente absorver completamente.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Predadores





Existem momentos nas alucinações em que a imaginação se mescla com aquilo pelo qual vamos passar. Nesse sentido, a Princesa nunca me enganou. Lembranças vão, lembranças vêm. Desaparecem, voltam, nos deixam órfãos, se tornam atavismos. Tudo que vimos está dentro de nós em algum local pronto a ser acessado um dia. Lembranças de elementos que sabíamos e que hoje colam-se, montam-se e geram percepções a serem estudadas, compreendidas e que nos levarão a locais novos. Seqüências de um filamento que nos guiam a um despertar e que podem ser novamente esquecidas, esperando serem novamente ativadas e entrarem na composição de novas vias internas. Estamos sempre sendo construídos. De percepção em percepção. De despertar em despertar. Numa dança cósmica infinda e inadiável. Transladando entre caminhos, tornando-nos novos a cada ciclo de transmutação.

Encarar-se é inadiável. Ou estamos indo rumo a encarar o inimigo. Lutamos sempre contra ele, que se esconde na escuridão, no ponto cego de nossa visão interior. Nunca se manifesta de forma a ser visto. Sempre nos controlando e dominando. Entrando em nossa mente e pensando por nós. Levando-nos ao erro, a não ser percebido. Um predador mesclado com nossos instintos. Sempre na espreita para nos derrubar. Não temos armas contra quem está misturado com nossos medos e nossas incompreensões sobre quem somos. Não há como enfrentar que quer sempre nos sabotar, sem saber quem é, onde está, como age.

Entramos nas piores situações sem perceber. Sempre nos sabotando, impedidos de ter o que mais desejamos. Somos todos auto-destrutivos. Alguns mais, outros menos. No fundo de nós vive esse predador invisível, que manipula tudo que temos contra nós. Tudo que pensamos ter. Tudo que imaginamos ter. O predador que nos leva a nossos perigos mais insanos. Que nos faz degenerar, errar no momento exato, perder o que temos. Quanto mais procuramos consciência, mais o predador se espreita nos desencaminhando. Quanto mais nos voltamos para o mundo e uma vida de futilidades, mais o predador nos faz entrar em choque com o que procuramos, mais nos faz depender do ilusório, acreditar em fantasias, procurar se esquecer do sonho que nos fez estar aqui.

Certa vez, na dimensão da alucinação, procurando por mim mesmo, desafiei a tudo que me cercava. O Príncipe perguntou se era capaz de lutar. E desafiei dizendo que não podia ser vencido. O Príncipe me retrucou para um duelo e perguntou novamente se achava que podia vencer a tudo. Respondi com agressividade dizendo que era insuperável.

O Príncipe elevou o tom, em uma voz de controle, perguntando se tinha certeza do que estava falando. Ao mesmo tempo, toda a minha agressividade se plasmou e coagulou em palavras ásperas perante o Príncipe, dizendo que não podia ser vencido.

Com sadismo o Príncipe veio para lutar. Mas não era ele. Era eu com quem devia lutar. Eu perante eu para um duelo. Minha imagem quase fisicamente plasmada partindo para me destroçar.

Rapidamente comecei a mudar de força para espancar meu duplo. E esse me imitou prontamente, fazendo exatamente o mesmo. Os golpes que desferia recebia em simetria. Carregava mais armas e me tornava cada vez mais assustador. E o duplo também fazia exatamente o mesmo, no mesmo instante, lendo todas as minhas reações. Nem ele, nem eu, nos feríamos, pois nossas armaduras eram cada vez mais sofisticadas.

Em um acesso de alucinação, comecei a golpear e a ser golpeado em igualdade, de forma extremamente violenta. Os choques balançavam as realidades que criei. Pensei que seria derrotado por esse ser, ao mesmo tempo em que pensava em vencê-lo antes. O mais rápido que pudesse, antes que perdesse o fôlego. Era impossível, o duplo tinha as mesmas habilidades que eu, na dimensão do Príncipe e da Princesa.


Aumentei a violência a um nível de insanidade. Não sabia quem mais era. Não percebia que diferença tinha de meu duplo. Éramos ambos, um golpeando o outro sem piedade. Mas éramos o mesmo, sem diferença. Fui além da consciência, em algum local instintivo de violência e agressividade total. Até que me vi golpeando um espelho. Agredi totalmente o objeto sem piedade e esse se quebrou.

Não havia nada em nenhum dos lados. Um vazio imenso e perturbador.

Até onde somos nossos inimigos? Até quando lutamos conosco para nos mantermos exatamente em local algum? Qual o motivo temos por lutar para nos sentirmos reais?

Entramos em nosso labirinto que vamos moldando por ilusões, crenças, imaginação, desejos e todos os mais inexistentes tecidos. Não somos nada disso. Não somos nada. Nada além de nada. Nada disso existe. É irreal, é uma imitação estúpida de algo que vive em nós. É uma negação do que somos. Vamos nos encarcerando e nos perdendo. E dando força a nossos predadores que criamos para nos destroçar, ou acordar. Somos o nosso pior inimigo.

Certa vez pedi ao Príncipe que mostrasse meu predador. E esse disse que não podia mostrar algo que eu mesmo sou. Não há como montar uma imagem minha de algo que sou totalmente. Bastava olhar no espelho e saber quem me sabota.

Esse é o custo das máscaras.

Mesmo nos reinos da alucinação nos enganamos e não conseguimos transcender. Não conseguimos nos livrar de nosso lastro, de nossas âncoras, sempre dando de cara com as grades. Onde não podemos transpassar.

As grades de nossa limitação.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ego

Goya - Prisão Interior


Quem sou realmente?

Essa é uma velha pergunta. Aquela que as igrejas costumam afirmar ter a resposta. Colocam a divindade a qual cultuam no centro e respondem que somos simples criaturas. Olhamos para esse todo despersonalizado, ligado ao que podemos chamar de sociedade, ou um “Eu” coletivo, que se curva perante a moral, a ética, a estética, aos costumes coletivos. Todos seguindo um rumo geral, lutando para se integrarem e tomarem uma posição de destaque nesse mundo que nos foi legado. E que passaremos a frente, via a sempre sagrada família, para nossos descendentes.

Mas... Quem sou realmente no meio disso? Não existe resposta nesse esquema que nos é imposto. Não há como saber quem se é pela vida que levamos. Não há como saber quem se é aceitando essa vida que nos leva a um freqüente desequilíbrio.

Quem sou realmente?

Não é fácil saber. A resposta é individual. Precisa ser buscada individualmente. Lá no nosso íntimo. Em figuras que encontramos apenas em movimentos místicos, em religiões e cultos exóticos, em um mundo que é qualificado como escapismo, ou fuga de responsabilidades, como um ideal inatingível, como um mito tóxico.

Quem sou realmente?

Essa questão está cifrada em textos confusos, em filosofias orientais, nas palavras de gurus, de mestres de coisas estranhas, escritas de formas complicadas, quase indecifráveis, de uma forma que é sempre difícil de compreender. E o que devo fazer para encontrar a resposta de quem sou realmente? Existe algum roteiro? Alguma fórmula? Algum curso? Seminário?

Quem sou não é quem o outro é. Não há como descobrir a si mesmo, apenas olhando o caminho daqueles que encontraram o próprio. Temos apenas linhas gerais do que conseguiram. A narrativa de um estado. O estado que conquistaram ao encontrarem o caminho.

O princípio inicial é aquele em que deixamos de viver apenas para o mundo. Existe uma necessidade espiritual para uma busca. Uma busca que parece sem sentido. Entramos na busca sem saber onde iremos chegar. Até o momento em que a pergunta surge:

Quem sou realmente?

Andando por esse mundo complexo, de procura de si mesmo, vemos que as respostas dadas são insuficientes. Cada um passa por processos individuais, na busca e na procura por quem realmente se é. Perder-se nesses domínios é fácil. Dar voltas e não chegar a local nenhum, também.

Como encontrar a si mesmo? Apenas dentro de si mesmo.

Estudar ajuda. Conhecer o que dizem as diversas escolas, também. Falar com quem superou esse processo, igualmente. Pode ser essencial ou não, dependendo de cada um. Pois somos únicos.

Temos figuras separadas, sempre mal compreendidas, interessantes de serem percebidas em sua integridade. Existe o Self, ou Si Mesmo, o Eu Superior, o Segredo, nosso conteúdo “divino”. O Eu, ou o Puer, a Criança Divina e Solar. O Ego, senhor das Máscaras e da Persona. E a Mente.

É assim que viemos ao mundo.

Quem sou realmente?

Jung dizia que o primeiro passo é a dissolução da Persona. Daí começa o processo de encontro do Si Mesmo. Abandona-se o coletivo, tudo que não é nosso vem para a adequação ao mundo e a sociedade. O Ego impede a manifestação do Si Mesmo. Confunde-se achando que é tudo que existe dentro de nós. Crê ser real. Necessita de atenção para manifestar-se. Atenção tanto exterior, quanto interior. Coloca-se no centro dos caminhos internos. Atrapalha o correto funcionamento da mente. Entope nossas vias com pensamentos inúteis e repetitivos. Perde-se no eterno diálogo interior. Necessita interagir com as pessoas. Não compreende o silêncio, a si mesmo, ou o que existe fora. Não consegue compreender os outros, por não saber quem exatamente é. Olha para tudo como se fosse uma expressão de si. Onde vê, tudo espelha. É incapaz de ver o outro como esse o é, pois não consegue perceber nada a não ser a si mesmo. Não percebe o mundo, a mentira da sociedade, os jogos de poder, a necessidade de ser para os outros.

A grande falácia do mundo é construída por ser dominado por aqueles que não dominam a si mesmos. O ego e todas as personalidades existentes dentro de nós criam um estado de confusão eterna. Um estado de necessidade eterna de expressão, de dramas, de carências, de instabilidades infindas. Todos são apenas projeções. São aquilo que o mundo dos egos projeta. Como tudo que projetam na sociedade, que crêem ser, que lutam para construir. Constroem sempre em nome de algo. Mas esse algo nada mais é do que a própria confusão interna, o mundo sem controle do ego. Aquele vazio estranho, que gera angustia, depressões, medos, inseguranças. O mundo complexo e infantil egóico. Complexidade essa que é apenas aparente.

O ego não foi feito para comandar. É apenas parte e não o todo. E uma parte pequena, apenas uma ferramenta.

Quando o ego se torna o controlador, impõe um reino tirânico que não se mantém. Uma negação do Eu real. Ao mesmo tempo, uma caricatura desse mesmo Eu. Finge ser quem é, em nome de controle. Mas não é realmente. Quando as posturas do ego, normalmente falsas e errôneas, são postas sob pressão, ou questionadas de forma cortante, esse simplesmente reage de forma descontrolada, com o intuito de se preservar. Assim, o ego manipula qualquer forma de auto-conhecimento real. Distorce, absorve, imita, tenta ser. Não o consegue realmente. Cria personalidades de cristal, belas e quebradiças. Inexistentes realmente. Impossíveis de se sustentar, quando o golpe é preciso.

O ego não resiste a análise. O ego demanda toda a atenção. Gosta de ser analisado. Gosta de saber sobre ele. Molda-se para ser aquilo que dizem que ele possa ser. Imita e mimetiza. Faz de conta. Diz que vai melhorar. Diz que vai colaborar. Até o tenta. O ego sempre quer evoluir, melhorar, conhecer mais. Tudo em nome de se manter no controle. Controle que foi cedido. Mas pode não ser eterno.

Quem sou realmente?



Não, não sou essa imagem refletida no espelho. Não sou aquilo que sempre julguei ser. Não sou isso que estou vendo. Lá no fundo dos meus olhos, vejo outra pessoa. Uma pessoa que por vezes aparece em algumas fotos. Pode ser que admire essa pessoa, pode ser que a tema. Não consigo ser indiferente a ela. Em algum local, existe um outro Eu. Em algum local perdido dentro de mim.

Quando aparece essa reflexão, o ego reage. Volta-se contra si. Teme perder o controle, faz tudo para se manter dominando. A parte controla o todo. É a luta do Si Mesmo. O real dentro de si, aquele que é bestial e instintivo, contra aquele que se diz humano, cheio de valores.

E os valores começam a ser quebrados. A moral torna-se um fardo, uma ilusão, algo irreal, criado por irreais. Coletiva, inexistente, uma forma de controle. Algo que o controlador usa para se manter no poder. Moral que cria leis, que rege a sociedade dos vencidos pela parte, vivendo em nome de mentiras, surrealidades, ilusões.

O mundo de ilusões do ego. O mundo irreal coletivo. A prisão real.

Conhecer a si mesmo, é manifestar a si mesmo. É conviver consigo mesmo. Não existe fórmula lógica. Não existe explicação. É ser. Apenas e tão somente. Quem se é, não se expressa. Apenas se é.



Ali no fundo, sentado em uma sala escura, apenas observando, esperando para tomar o verdadeiro controle. Ali está quem se é.

Em volta, o controle de quem não controla. De quem não é. De quem finge ser.

O Puer, a Criança Solar, aquela que realmente conhece o Si Mesmo. Onde o Si Mesmo se manifesta. O fenômeno do Si Mesmo. O fenômeno do Eu Mesmo. Sem crises, traumas, jogos, impossibilidades.

Encontrar ao Eu corresponde a penetrar em um oceano de possibilidades. Algo mais que Quântico. Algo incontável. Descobrir tudo que se é. Tudo que realmente se gosta. Tudo que realmente dá prazer, força, beleza.

Quem sou realmente?

Apenas seja.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O Mundo das Cascas

Apenas e tão somente, plástico. Um material artificial e poluente.



Palavras, imagens, símbolos, parábolas, histórias, imaginário e assim por diante... Nada é capaz de nos expressar. Nada é capaz de mostrar nossa verdadeira face.

Há um momento em que não conseguimos mais explicar o mundo e nada que vem do mundo tem o poder de nos expressar. Procuramos em todos os locais, em toda nossa jornada e percebemos que tudo o que estudamos, em todos seus nuances, ritos, formas e elementos, não é capaz de nos colocar diante daqueles que realmente somos.

Enquanto isso existe a busca pelo silêncio, o andar pelas ruas, a procura do isolamento, a dependência de terapeutas, de teorias, de tratamentos, de respostas e mais respostas. Respostas se reproduzem rapidamente. Eles geram questões e mais questões, de formas infinitas, que nos fazem procurar por mais repostas. O olhar para si mesmo é interrompido: Ficamos nas respostas e nas questões. Pode ser que nesses momentos, haja algum alívio. As respostas no aquietam, nos introjetam, nos colocam em um estado reflexivo, até a próxima questão.

A auto-análise é interminável. É perder-se dentro dos ciclos dos ventos internos. Somos o que querem que sejamos. Procuramos novos modelos para nos expressar de formas que acreditamos serem as corretas. Todos os modelos externos, desde os mais simples, aos mais sofisticados. Olhamos para as cartas do Tarot. Olhamos para a mandala astrológica. Olhamos para as rodas xamânicas. Para a sabedoria das runas. Para os psicologismos das Árvores da Vida. Olhamos para tudo e extraímos significados intermináveis. Inundamos-nos de teorias psicológicas. Olhamos para todos os mestres e criadores de teorias da personalidade. Cada um explicando o ser uma forma diferente. Todos sempre certos, cheios de teorias comprovadas e de “curas” miraculosas.

Ali nos enquadramos. Criamos pedestais para aqueles que cultuamos. Inserimos-nos em alguma forma de explicação aparente. Adaptamos nossas máscaras para representarem seus sintomas. Afogamos nossas esperanças em sermos curados das doenças que criamos. Damos forças a elementos externos e nunca entramos no centro do problema.

O problema que nunca existiu.

Todos são capazes de dizer como nos comportamos. A partir de quais parâmetros, de quais meios, de quais estruturas e por fim, como nos tornamos melhores seres. Porém, nada é capaz de desnudar quem realmente somos.

Existe apenas adequação.

E existe o poder de adequar. E esse poder consome e corrompe.

Nos doutrinamos e deixamos aqueles que são cheios de respostas a nosso respeito orgulhosos de nosso trabalho. Mudamos a partir de parâmetros. E ganhamos a atenção prometida. Assim mesmo e dessa forma: De algo além de nós, para nosso agrado.

Reprogramados, estamos prontos para o restante de nossas vidas, plenos de novos significados, que foram dados pela nossa “transformação”. Temos todas as respostas. As questões são explicadas por alguma teoria, ou pela experiência de quem nos dá esse pressuposto novo ser, ao qual vestimos, felizes com uma nova roupa.

Roupa nova terapêutica, roupa nova esotérica, roupa nova religiosa, roupa nova na qual nos apegamos. Sempre nos explicando, sempre sabendo o que somos a partir de algo.

Esse é sempre um algo que não é algo.

Ninguém é algo que o explica. Ninguém é passível de explicação. Não existe percepção a partir de um ponto. Nada que entra na nossa cabeça é real, desde que não venha do centro. O movimento rumo ao centro é único, exclusivo, delicado, intrincado. É um dar de voltas e ir quebrando todos os obstáculos. O destruir da sala de espelhos. O destruir dos espelhos que usamos no rosto. Não podemos mais nos adaptar. Temos de aceitar. Quebrar cada pedaço do que não somos. Descobrir, procurar e perceber cada pedaço que não é o que somos. E estamos cheios de partes que não são nossas. Partes que assumimos, partes que criamos e aumentamos. Imagens inexistentes. Apenas uma sucessão de imagens. Apenas reflexos em um local desolado. Projeções dependentes. Projeções de seres dependentes. Cascas infinitas auto-geradas pelo nada. Cascas que vivem pelas cascas. Cascas que se relacionam com cascas. Cascas animadas. Fúteis cascas. Infelizes cascas. A maioria absoluta dessas cascas crê existir.

Realidade...

O que é a realidade, quando se percebe o mundo das cascas ambulantes, que pensam serem algo verdadeiro? Várias dessas cascas existem apenas para decorar o ambiente. Vazias, andam pelas ruas procurando enfeites, para agradar outras cascas. Inertes, seguem os ritmos da mente coletiva, acreditando saberem algo. Irreais, apenas são proteções para esconder o que as gera. Cascas que se parecem com máscaras.

Máscaras que geram máscaras e que não dão opção de escolhas. Escolhas estão além das máscaras. Máscaras não são capazes de decidirem por si mesmas. Apenas seguem a corrente. Seguem o fluxo do grande rio das máscaras. Aquele que desemboca no oceano da Morte. Morte que provoca o medo. O medo que faz com que o gerador das máscaras saiba de seu inexorável destino. O medo que escancara para quem possa ver além da sujeira que é o mundo das máscaras, a grande fantasia do mundo.

Um dia tudo deixa de ser. Podemos acessar a aquele que está além das máscaras, além da busca interminável de segurança, da angústia eterna, do medo que consome, da insegurança que desconsola, do vazio que exige explicações e respostas, dos modelos que não são capazes de dar a paz, da inconstância dos ventos que nos desnorteiam, da incapacidade em tomar as rédeas da própria vida.

Ou podemos viver de hedonismos, de satisfações putrefeitas, esquecer de pensar sobre nós mesmos e simplesmente esperar. Um dia a foice sempre chega. E nesse dia não passamos de mais um nome numa lápide.

Um nome que vai ser apagado com o tempo.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Como Animais

O bestial vive em nosso mais profundo?



Apenas o humano é domesticado. Animais são sempre selvagens.

O acesso ao próprio selvagem corresponde a descer uma escada em espiral, no mais profundo, na escuridão. Ali, onde nada inspira confiança e conforto, longe de tudo que conhecemos como sendo civilizado e tecnológico, além de toda convenção, condicionamento e proteção, está o real. Apenas o real. O nosso eu selvagem. O encontro com o próprio bestial. Nesse momento temos de assumir nossa animalidade, dominar a fera e tê-la ao nosso lado.

Porém, esse movimento é perigoso para todo o restante do que chamamos de sociedade. O ser selvagem é desagradável, é perseguido, é aquele que vive à margem do restante.

Desde crianças somos domesticados. Condicionados, educados, doutrinados, encarcerados. Essa descaracterização é construída sob todas as expectativas da família, primeiramente. Humilhados, comprados, convertidos, nos sentimos ao final, totalmente úteis para o meio. Aprendemos a dar valor em bens materiais, carreira, objetivos de vida, leis divinas, bênçãos alheias. O restante é dado como diabólico. Rejeitado como algo ruim, horrível, detestável. O que somos realmente está no meio do submundo. O medo é colocado como portal. Os valores zelam pela nossa miséria. A sociedade de consumo tira nossa atenção. A mídia nos torna estúpidos.

Deixar de ser quem se é realmente, nunca é agradável. O aprisionamento é uma violência contra a verdadeira natureza. É necessário deixar de lado o que somos em nome de algo supostamente maior e de suposto real valor. Marcas são criadas. Comportamentos aceitáveis gerados, treinados, colocados em nossa face. É a formação da personalidade. A máscara que vamos impor ao mundo. Cravada no rosto com chicotadas, ou com carinho, ou com sedução, ou com trocas. A máscara é cultuada. É valorizada. É o final da infância. O inicio do nosso reconhecimento como pessoas. Sem máscara não somos aceitos. Sem a máscara não existimos.

As marcas da criação da persona, assim como as marcas de diversos traumas e problemas diversos, são colocados por trás da máscara. E lá ficam todos escondidos. Assim como quem realmente somos. Atravessar o portal da máscara é acessar a escadaria que leva ao submundo. Na escadaria encontramos partes soltas daquilo que nos é real. Fantasmas de todos os tipos. Fantasmas daquilo que escondemos por trás da máscara. Partes daquilo que negamos. Que fomos obrigados a negar. Daquilo que não somos capazes de aceitar de nós mesmos. Tudo que abandonamos em nome de conviver. A vida real que devíamos ter, mas foi abandonada. As raízes daquilo que não brotou. Nossos medos, nossa desesperança. Nosso lado obscuro. Nosso verdadeiro lado complexo.

Tudo isso clamando para voltar à tona. Bombardeando a máscara e a sociedade. Causando problemas a todos que nos cercam. Tentando nos sabotar a cada momento. É a hora de assumir-se. De saber quem se é.

No entanto, é apenas o começo da descida ao submundo.

Quando o portal das máscaras se abre, encontramos nossas feridas. Elas agora estão expostas, não há como negar sua existência. É o momento de culpar a tudo que nos cerca pelo que fizemos, ou pelo que não fizemos, ou pelo que nunca tivemos coragem de fazer. Ali, perante nossas feridas expostas, diante do espelho, vendo nosso verdadeiro rosto, as marcas estampadas, a dor reprimida, o animal acuado, raivoso, pronto para atacar.

O momento em que vem a compreensão da máscara. Ela é como um elmo. A criamos como proteção. Protegemos-nos com ela do restante do condicionamento. Aceitamos o que foi imposto. Tornamos-nos o que todos esperam que sejamos. A máscara é uma violência. É uma forma de degredo do real. A inaceitação. A programação.

Retirar a máscara desfaz o programa. Mas gera outro problema: Como viver com liberdade? Como olhar para o mundo com reais olhos? Como ver as máscaras nas faces alheias? Como ver as pessoas sendo torturadas por elas mesmas e pelo meio em que vivem? É o terror da realidade. É simplesmente, a verdade.

A máscara se torna um elmo, mas o guerreiro teme lutar.

O ego é uma proteção, mas é uma violência. Para o mundo mascarado, existe apenas a espera pela Morte. Viver sem viver. Uma vida fútil, sem sentido, apenas sendo norteada pelo que o mundo das máscaras oferece. Uma vida apenas um pouco mais decorada.

Encarar as próprias marcas é ir além de se deliciar na própria doença. É dissolver complexos, retirar a dor. Encarar o próprio lixo, descendo a escadaria, com o eu selvagem a frente, observando e esperando.

Apenas o inicio, passar por Cérbero, pagar o barqueiro...

Ir além das lágrimas das próprias feridas. Ir de encontro à lembrança de si mesmo. Retirar quem se é do fundo da escada em espiral. O reencontro. O encontro do verdadeiro eu.

Ali, onde a Criança Dourada dialoga com o Velho Sábio.

Não seremos mais vários, confusos perante o mundo. Seremos apenas um e o Universo nos verá.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Peso das Máscaras


Somos semelhantes a estrelas?



A idéia de que somos estrelas, ou pelo menos, como elas, é muito antiga. E não existe muita novidade nisso. Remonta a uma crença sideral da antiguidade, onde um de seus mais ilustres expoentes seria Platão. Modernamente, com o conhecimento vindo da física estelar, tanto como da termodinâmica, como da cosmologia, foram propostos modelos próximos para nosso funcionamento.

Seriamos moldados pela energia psíquica (para alguns a libido), que por comparações míticas, poderíamos associar ao funcionamento estelar. Existe toda uma “economia” ligada a essa energia, além dos problemas causados pelo aumento de entropia.

Manter certas estruturas demanda mais energia psíquica. Certos esforços também. E esse é o caso da complicada estrutura que criamos, chamada de persona. Ou pelo termo que venho aplicando: Máscara.

Falar sobre a máscara realça todo um conteúdo mítico e simbólico que auxilia no trabalho de remover. Remover, claro, todo o conteúdo mítico e simbólico que nos impede de ver corretamente a máscara. Ou simplesmente de nos olharmos sem ela. Ou, mais complexamente, de olhar para o mundo sem o seu auxílio. Olhar para nós e para todos sem os filtros da máscara.

A máscara é nosso molde para o mundo. Foi construída baseada nos critérios de aceitação desse mesmo mundo. Foi moldada pelo nível de exigência de cada individuo. Foi forjada com energia psíquica. Foi calcada e calcinada em nossas faces por apego e infantilidade. Ela se mistura conosco e nos faz crer que somos única e exclusivamente ela. Somos dominados por algo que criamos para poder conviver na sociedade.

Não somos a mascara. Temos de enxergar além dela. Porém, cultuamos tanto a máscara, nos importamos tanto com ela, que necessitamos cada vez mais de energia para que ela seja cada vez mais bela e aceitável.

Para ir além da máscara, necessitamos ver quem realmente somos. E para tanto, necessitamos de energia psíquica. Pois a imagem real está além da máscara. Não estamos visíveis, não sabemos para onde exatamente olhar. Quanto mais nos focamos na máscara, menos vemos nosso próprio conteúdo, mais tendemos para a futilidade. Mais vivemos de aparências, voltados ao exterior e a quem se importa com máscaras. Ou seja, praticamente todos.

Com uma máscara, podemos ser quem quisermos. Moldamos a máscara ao personagem que nos mais agrada. Porém, esse personagem é falso. Algumas vezes é moldado conforme mitos. Outras, conforme a literatura. Ou conforme os moldes mais comuns existentes. Como não corresponde a um padrão real, calcado em quem somos, esse personagem não é capaz de alcançar algum desenvolvimento, ou chegar à maturidade.

Viver pela máscara começa a se tornar um fardo. É necessária cada vez mais energia psíquica. Deixar de lado qualquer desenvolvimento e contato consigo mesmo, em nome da dedicação as aparências. É muito mais difícil ser algo que não se seja, do que focar-se no Si Mesmo, e deixar que a criança, o Puer, tome o controle sobre a persona.

Focar-se na máscara é antes de tudo invejar. É querer a melhor máscara, é espelhar-se no outro para melhor se compor. É criar com mais e mais esmero uma fantasia. Afinal, máscaras são utilizadas juntamente com fantasias. A fantasia de um fútil baile de máscaras. Onde ninguém enxerga o real rosto de ninguém.

Sem o acesso à criança solar, não existe contato com o espiritual. Depende-se da pura fé, da doutrina, do dogma, daquilo que não inspira reflexão, pois conectar-se ao divino é uma profunda forma de se liquefazer a máscara.

Nada é real. A máscara, a família, a sociedade, a religião, o estado, o direito. Todos são compostos por máscaras e pelas máscaras. Seres que protegem as máscaras. Máscaras que protegem máscaras. Pessoas que lutam pela manutenção de um mundo calcado em máscaras. Tudo é aparência.




Qual o preço do sacrifício?



Até o momento em que começa a insatisfação. Qual o custo pela manutenção de máscaras que nos afastam de quem somos? Qual o custo da manutenção de papeis que não nos possibilitam o crescimento e fortalecimento de laços com a psique? Qual o custo do sacrifício para estarmos distantes de quem realmente somos? Vale realmente a pena termos vidas infantis voltadas para as aparências? Deixarmos de lado o nosso verdadeiro eu selvagem? Sermos domesticados e acorrentados em uma teia infinita de responsabilidades inúteis, que apenas consomem nossa energia? Termos uma história pessoal pela qual lutar? Termos uma vida voltada e calcada em padrões de moral e conduta impostas pela sociedade? Vivermos nulificados em nome de uma divindade? Deixarmos de lado quem somos em nome de uma crença? Vale a pena deixar de viver em nome de um relacionamento? Vale a pena apostar em quem não amamos, em virtude da crença da santidade do casamento? Vale a pena ser dependente de quem quer que seja, em nome de dizer que somos felizes? Vale a pena viver de esperanças, enquanto nada acontece? Vale a pena não agir, em nome de uma vida que nos é imposta?

A roupa que veste, é realmente sua? É esse o papel que quer para si? É isso que vê no espelho, o reflexo do seu eu real?

A relação que tem com a família é real? A dependência que existe para com a família, é algo seu, ou imposto? A dependência que a família tem para com você, é real, é imposta, é ilusão? É glamour que o cerca realmente? A miséria que tudo se tornou, é realmente seu? É algo maduro? É algo que o leva ao desenvolvimento?

Gasta todas as energias que tem com o que?

As responsabilidades que tem são realmente necessárias? Precisa realmente disso? Está além do que é suportável? Realmente é alguém de sucesso? Ou é escravo do que chama de sucesso?

Existe vida além disso? Onde está no meio disso tudo?

Assumiu ser louco, por precisar de disso? Sua loucura é real? É imposta? É um papel? É uma forma de conseguir algo? Até que ponto é dependente de seus escândalos? Até que ponto se tornou dependente de sua doença?

Até que ponto a sua doença é criada e cultivada pelo meio? Necessita realmente dela? Necessita realmente ser um incompreendido? Necessita de ser uma pessoa correta?

Isso tudo que mostra e vê, é real?

Caso não seja, não é você.

Quem é você aí no meio disso tudo?

Não gaste energia com ilusões. Foque sua libido no Si Mesmo e no nascimento da criança solar. É essa que vai se desenvolver.

Mas cuidado. Quando retirar a máscara será apenas você mesmo.

Agüenta essa visão?

Já vi gente enlouquecendo por ver quem realmente é. Tentando juntar os cacos da máscara. Tornando-se mais e mais doentias. Perceber-se é doloroso. Saber quem se é, uma tarefa para poucos.






O que existe além de nossas coloridas e belas máscaras?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Espelhos e o Louco

Máscara de Carnaval em Veneza



Nem sempre ao olharmos nosso reflexo no espelho, vemos o que é real. Vemos um produto criado para ser mostrado. Um produto que é a síntese de vários produtos vendidos pela sociedade de consumo. A união desses elementos é uma forma de agradar e conseguir um objetivo. O principal deles é a aceitação. Sermos aceitos primeiramente pelos pais, depois a uma tradição familiar, pelos que estão próximos e por fim, pela sociedade em geral, procurando os objetivos gerais impostos como padrões de mercado. O custo de gerar esse produto é relegar ao esquecimento aquilo que verdadeiramente temos. Prefiro comprar algo externo a mim, a utilizar o que tenho à mão.

Criamos uma imagem agradável a ser mostrada a todos. E quanto mais interessante ela se torna, mais a embelezamos. Cultuamos a máscara. Deixamos de lado o que realmente somos em nome do que nos agrada: O reconhecimento e a atenção alheia. Essa máscara implica em um papel a ser vivido. Em recolher o roteiro conforme modelos disponíveis, todos literários, mitológicos ou imaginários. E depois viver esse roteiro, que nos leva a deixar de lado qualquer possibilidade de realizar a aquilo para o que fomos moldados. Assim, o que realmente somos é substituído por algo que reina sobre nós. O ego se veste desses componentes e os usa para dominar nosso destino. A máscara cênica domina o ator, de forma que não se consegue escapar do personagem e continuamos atuando o papel pelo resto de seus dias. Os papéis são trocados por conveniência. O coitado, o responsável, o herói, o marginal, o incompreendido, o sofisticado e o mais complexo de todos: O sábio.

Entretanto, a máscara se faz necessária ao convívio social. É através dela que vamos manipular a sociedade e não sermos manipulados por ela. Não sermos vítimas dos papéis, mas senhores e manipuladores deles. Para essa transição, aparece a figura do bobo da corte, o Louco, o trickster, o Heyokah.




Heyokah



Quem sonha com os pássaros do trovão (ou Wakinian), ou com o trovão e a tempestade, pode se tornar um Heyokah na tradição Lakota, a figura do que conhecemos em nossa sociedade como o palhaço. O Heyokah está acima da simples caricatura. Ele é o bobo sagrado. Tem atributos sobre-humanos e é aquele nos previne das ações funestas do coyote. Rir de si mesmo, inverter os padrões da tribo. Vestir-se ao contrário, enxugar-se antes de se banhar, dormir durante o dia e assim por diante. Heyokah é como o sátiro, o desconcertante, aquele que ensina pelo rir, pelo absurdo. Suas lições são cortantes, pois tiram do comum, alteram a percepção viciada por aquilo que chamamos de correto. Vai além da estagnação, da calcificação, das tradições, pela seriedade e principalmente, pela auto-importância. É a loucura demonstrando o caminho. É a loucura disparatando o que entendemos como normal. A insanidade divina. A caricatura da máscara zombando da pompa.

Em síntese, o Heyokah é alguém que tem habilidades para com a tempestade.


Algo semelhante como o traçado pelos componentes da escola Cínica na Grécia. Os Cínicos defendiam a ausência do supérfluo em nome da autarquia, ou seja, o domínio sobre si mesmo. Diógenes, principal discípulo de Antístenes possuía apenas uma túnica, um cajado, um embornal de pão e vivia em um barril. Assim como invertia as ações da cidade, caricaturava, zombava e levava ao choque.



Diógenes de Sinope

Outro exemplo é o dos dervixes da tariqa Bektash, que mesclam situações cômicas e até desrespeitosas para ativar percepção. Como ir as mesquitas e fazer orações bêbados, sem ablução, ou emitindo sons corpóreos “constrangedores”. Todas situações reprováveis aos olhos dos muçulmanos ortodoxos. O objetivo mais exato é chamar a atenção ao movimento repetitivo e desconexo das práticas islâmicas.

Dionísio, o deus das máscaras, era acompanhado por um cortejo composto por Pã, Príapo, Sileno e dos Sátiros. Havia a alegria e o desconcertante, na indução do êxtase, do selvagem, da transgressão. Dionísio o deus da loucura. O Louco Divino, que quebra os padrões da religiosidade, devolvendo ao estado selvagem e natural.

Quando existe a conexão com o Si Mesmo, o Louco Divino começa a se manifestar e demonstrar a inexorável fragilidade da máscara, o domínio inconseqüente da persona, o controle que a auto-imagem impõe ao indivíduo, o tamanho do apego pelo externo, o ridículo pelo qual vivemos e nos vendemos. A auto-importância começa a se tornar um incomodo e o reflexo do no espelho começa a ser agressivo. Ou o Heyokah vence a máscara e nos torna senhor dela, ou o coyote está pronto para nos derrubar e colocar em perigo.

A máscara deve apenas existir como jogo de cena e não como domínio. Deve demonstrar o mistério para o mundo e a roupa invertida do Heyokah. Sacrificamos nossa auto-imagem, assumimos quem somos. O inimigo do Deus é sacrificado. Olhamos a verdadeira imagem no espelho. Da sátira para a tragédia.

A máscara não se entrega facilmente. Entretanto, a desconstrução já está em curso. Até o momento em que o domínio sobre a persona torna desconstrução em revisão, no olhar correto, na percepção verdadeira do fenômeno do Self.

Tornar-se senhor das máscaras é deixar que o Louco conduza a jornada. O Louco é a conexão com o Si Mesmo, é a chave para o nascimento do Eremita. A assunção do Puer é o começo da jornada. O Puer não é a liberdade, ou temos aí a repetição do vôo de Ícaro. O Puer é o início da manifestação do Sênex. Puer-Sênex são dualidades, misturas, syzygyas. Existe aí o domínio, o controle, a soberania. O dançarino divino como senhor de seus gestos, expressando a dança cósmica em cada ato.

O Puer é o Louco. O Sênex é o Louco.

Cada ato deve ser divino e é conexão. Cada ato com domínio próprio é o despertar eterno. É o enxergar do infinito. É a dança que distorce o que chamamos de realidade. Sem domínio e conhecimento próprio, não podemos ter a percepção correta. Não podemos ver o mundo que se esconde dentro do mundo. Não vemos o visível.

É na visão da águia que existe a manifestação de Wankan Tankan, o Grande Espírito.

Quem vê a si mesmo corretamente, vê ao outro corretamente, vê o mundo corretamente, conhece a própria jornada, toca nas próprias marcas. Torna-se manifestação do Si Mesmo. Muito além de apenas a si mesmo.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Dança Cósmica da Alucinação, Cósmica Alucinação na Dança

Alucinação de Si Mesmo?




É complexo falar sobre o Self (ou o Si Mesmo). Certas experiências são difíceis de se expressar, por se tratarem de elementos além das palavras. Nem sempre a razão é capaz de captar o que vivemos. Poucas vezes somos capazes de dizer o que deva ser dito, por não haver palavras. A razão apenas capta o que é plasmado pelas imagens. Ir além do que conhecemos como o que somos é uma experiência de êxtase puro, do tirar as máscaras e assumir quem realmente se é.

Assumir-se é ir além das figuras do ego. Abrir o canal para o acesso ao Self é como um desmontar de peças que colocamos como sendo o que gostaríamos de ser. Vivemos de projeções e expectativas. Até o despertar somos o que querem que sejamos. Lutamos para sermos iguais a todos. Lutamos para sermos aceitos. E todos os que temos próximos e dos quais necessitamos, jogam com o amor, com a atenção, com punições, nos compram, nos vendem, nos “educam”.

Esse é o processo da domesticação. Ao contrário dos animais, somos domesticados. Somos condicionados, escravos da grande máquina motora da sociedade. Fabricados como tijolos, para sermos encaixados no grande muro do mundo moderno. O muro que fecha o caminho para o Self, onde somos quem realmente somos, que está em um outro Mundo (que não é mundo) onde somos seres totalmente selvagens.

O ser natural e selvagem que vive em nós está além de todos os muros. Para acessar a quem somos, temos de desconstruir o muro. Desconstruir quem somos. Refazer a escala genética evolucionária. Destruir a evolução que nos coloca como elementos de uma parede. A sociedade nos tornou uma projeção dela mesma. Uma distante fortaleza da solidão, onde estamos em contato com todos ao mesmo tempo em que estamos isolados de quem realmente somos. E a solidão de estar longe do Self é viver entregue às máscaras que criamos para o mundo.

Desmontar a fortaleza da solidão é recriar o grande labirinto em espiral. Cada tijolo daquilo que achamos que somos irá fazer parte da grande escadaria em espiral para o centro. O centro de quem somos. Descer essa escadaria é entrar na grande alucinação do Self. A percepção do fenômeno do Self, a alucinação do encontro consigo mesmo.

Perceber a Si Mesmo é perceber o que não se é. A retirada das máscaras, a assunção do verdadeiro em si. O estremecimento daquilo que chamamos de realidade, a vinda daquilo que podemos chamar de Verdade. A única e subjetiva Verdade. Além de símbolos, imagens, literatura, mitos, figuras e qualquer forma de imaginário. Nada além de Si Mesmo, nada menos do que se é. O exato. O ponto central e de equilíbrio total.

Perceber-se, saber quem se é. Saber o que não é. Saber os próprios limites. Saber onde se toca o ilimitado. A percepção de até onde vamos. E o que está além de nós. O que é meu, realmente meu. Quem sou e o que isso me possibilita. O que me possibilita é algo que me define. O que me define é o meu mar infinito de possibilidades.

Os filamentos alucinógenos de tudo que sou. O verdadeiro transe de quem sou. A dança do êxtase da viagem ao meu mais profundo. Ali onde me misturo com tudo que existe e onde sou parte, Eu mesmo sou o dançarino cósmico. Minha dança é a dança do universo, do infinito e do finito. Sou o que posso ser. Isso é o grande assombro de ser quem sou. O assombro do Si Mesmo. O assombro de tudo que existe.

Quem sou circula por mim, é quem sou, está além do jogo de máscaras. Para o mundo estou usando uma máscara. Perante mim, no centro de todos os labirintos, estou além de todas as máscaras. A máscara é aquela que uso para o mundo. E de mim, o mundo apenas vai ter minha máscara.

A máscara que é um conjunto de máscaras. O labirinto das máscaras. Aquela que dança com filamentos que destroem e penetram a ilusão que todos criam para os próprios egos. A máscara de minha persona. A persona de meu ego. O ego que confunde egos.



Nataraja



Assim serei: Aquele que usa a máscara e não é usado por ela. Quem puder me ver, olhará a algo firme como a mais pura rocha. Atrás da máscara, a mais pura alucinação. A minha dança cósmica em êxtase. O êxtase da bacanália. O êxtase da dança de Shiva, o Destruidor. O vórtex da existência.

Nada além de mim, além de mim mesmo.

Pura transgressão...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Labirintos de Espelhos



A luta com o Si Mesmo



Em nosso primeiro trabalho, o Velho da Montanha me mostrou um estado absoluto de encontro, uma imagem de percepção como um espelho daquilo que existe dentro de mim. Nem sempre percebemos o que está aqui dentro, pois é mais fácil estar perdido no enorme labirinto de espelhos, que também chamamos de psique.

Assim termina Jorge Luis Borges o conto “A Casa de Asterion”:
- Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu – O minotauro apenas se defendeu.

O labirinto é sempre um acesso, uma entrada, um local para onde vamos procurar um encontro. Assim como em Creta, existia um labirinto no Necromanteion, o local do oráculo dos mortos. O centro do labirinto é o local do acesso a si mesmo.

O labirinto também é a imagem da cidade. A cidade também é uma das referencias à Alma. Trafegar pela alma é andar pelo labirinto. Estar ali sozinho é estar sujeito a ser destroçado pelo Minotauro. Andar com a senhora do labirinto, Ariadne, é ter o fio que permite encontrar ao Si Mesmo e conseguir o retorno seguro.

O labirinto é pleno de caminhos e encruzilhadas. Composto pelos seus limites, com encruzilhadas em forma de “T” e encruzilhadas em forma de cruz. Um composto de cruzes e suásticas. Habitado por um ser meio homem e meio touro, de forma humana e bestial. O touro de Dionísio, que muitos crêem ser um deus cultuado em Creta. Dionísio que é apontado (juntamente com Hécate) como um deus que leva à bestialidade e à loucura.

Asterion, em grego ou Asterios, em latim, é o nome ao mesmo tempo do Minotauro, como de um rei de Creta. Asterion, ou “Senhor das Estrelas”, casou-se com Europa, amante de Zeus e criou seus três filhos Radamanto, Sarpedon e Minos. Existem versões onde o rei Asterion e o Minotauro são o mesmo ser. Minos viria a ser o sucessor de Asterion no trono de Creta. Em outro mito, o Minotauro é filho de Parsifae e de um touro que Poseidon envia a Minos, para ser sacrificado.

O que nos reserva o centro? O que nos reserva o centro do labirinto, provável morada de Astérion?

O labirinto é algo como o nó górdio. Um emaranhado impossível de ser decifrado. Conta o mito que Dédalo, brilhante construtor, ficou preso no próprio labirinto que criou a pedido de Minos, para aprisionar o Minotauro.

A psique não desvendada demanda sacrifícios e esconde seres como o Minotauro, como no mito em que Minos exigia que anualmente sete rapazes e sete moças fossem entregues para o sacrifício no labirinto. Como no texto de Borges, o Minotauro esperava seu salvador. Dessa forma, esse ser aparece como uma das representações do Si Mesmo, aquele que vive no centro do labirinto.

O Minotauro também é muitas vezes associado a Dionísio, deus do êxtase e portador das máscaras. As máscaras como acesso, semelhantes ao labirinto.

Ícaro, filho de Dédalo, também fica preso no labirinto. Junto com o pai, com asas feitas com cera, escapa voando. Mas, extasiado com o vôo, vai rumo a Hélios, o Sol. O calor derrete suas asas e ele cai no mar. Quem “escapa” do labirinto encontra outros perigos.

O centro é o local onde estaria localizado o Minotauro, a figura bestial, envolta na “sombra” do labirinto. Aparece a imagem que o Velho da Montanha me passou. Estar no centro, ser como uma rocha ou uma montanha, imóvel, centrado, localizado onde tudo converge. A visão total é alcançada por quem chega ao topo.

É claro que a rocha ou a montanha são símbolos pessoais. Poderia ter utilizado a imagem do Unicórnio, ou de violentos Dragões Telúricos.

Há muito tempo o Príncipe e a Princesa me disseram que isso se tratava do “ponto de convergência”. O ponto mais eqüidistante de tudo que somos. O local central de todo o nosso “tempo”, passado, presente, futuro, num mesmo instante. Todas as nossas sub-personalidades, em uma só. O centro das máscaras de nossa persona. O centro de tudo que falei. O “ponto de convergência” pode ser encontrado em diversas culturas, religiões ou cultos. Não é algo exclusivo, mas algo comum a todos que trafegam pelos corredores do próprio labirinto, parte do labirinto universal. O ponto de encontro de todas as almas. Uma cidade de símbolos, de locais, de passagens, de elementos infinitos. Um enorme jogo de espelhos cósmico. Aquele que é regido pela Senhora de toda a psique.

O fio de Ariadne não é apenas um fio, é o desenrolar de quem somos, o caminho que nos leva ao Minotauro e a trilha que nos define. Somos o caminho que trilhamos, todas as marcas que recebemos com ele. Somos as marcas que nos impelem a trilhar o caminho. Não existe diferença entre nós e o caminho. Entre nós e o fio de Ariadne. Ao encontrarmos o Minotauro, esse fio se torna nossa placenta, o sinal e a marca de que nascemos. A Senhora do labirinto se torna a parteira de nossa alma. Nascemos novamente, como filhos de uma Mãe que nos fez lutar contra o nosso Eu Mesmo.

Nada é dado gratuitamente. Quem vence o Minotauro, conquista a Si Mesmo. O Si Mesmo que emerge das sombras pelo êxtase, a tragédia dionisíaca. A omofagia de quem não somos. Criamos o nosso próprio alimento. Criamos nossos próprios medos, inseguranças e demônios pessoais. Eles serão sacrificados no altar do centro. Algo como o despir das cascas que nos levam à descida ao Mundo dos Mortos. O consultar do Necromanteion, o encontro com o oráculo, o oráculo dos nossos próprios mortos. Descer o seu labirinto, até a escuridão e ouvir as vozes dos que já se foram, mas estão nos indicando o caminho.

O encontrar do Santo dos Santos, um templo onde o local mais sagrado e fechado, destinado ao mais puro dos sacerdotes é onde existe um espelho. Nesse momento nos fundimos à imagem. E refletimos quem realmente somos. O Selvagem total e completo. Algo destinado apenas ao Guerreiro Perfeito.

Ali, num local onde vemos tudo. Não existem vários de nós, apenas um. Não criamos partes de nós identificadas com mitos, ou contos, ou lendas, ou algo imaginário. O centro é o real. O labirinto é de espelhos. Em cada caminho de nosso labirinto, reflete uma parte desse centro. Em todos os reflexos, um caminho tortuoso e impossível de se traçar. A cada ponto, o risco do Minotauro. Quando se chega ao centro, encontra-se o Eu Mesmo, antes de tudo Bestial.

Sem estarmos no centro, ou sem conseguir contato com ele, estamos perdidos pelos corredores, decorados com machados duplos.

No centro, vemos todos os reflexos possíveis do Eu Mesmo.

Os reflexos dos reflexos, dos reflexos, dos reflexos.

Os reflexos são infinitos.




Site com o texto completo de “A Casa de Asterion” de Jorge Luis Borges:

http://www.alfredo-braga.pro.br/biblioteca/asterion.html

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Espelhos Celestes




De Theia, a divina e Hypérion, a luz, nasceu Eos, a Aurora.

De Crio e Euríbia (ou de Gaia e do Tártaro), nasceu Astraeus, o alvorecer das estrelas.

Eos unida a Astraeus, teve vários filhos, entre eles:

Phainon, o brilhante.
Phaeton, o claro, luminoso, alegre (também dado como filho de Eos e Cephalus, que não deve ser confundido com o filho de Hélios, o Sol).
Stilbon, o “respingador”.
E Pyoreis, o de cor de fogo, o inflamado.

Eos também se uniu a Cephalus e concebeu a Hésperos, o Oeste, que os romanos chamaram de Vésper.

Os titãs Crio e Euríbia conceberam a Phosphoros, que os romanos chamaram de Eosphoros.




Phophoros, ou Eosphoros, ou Lúcifer




Esse é o mito do nascimento dos planetas, palavra que significa “errante”, pois ao contrário das estrelas “fixas”, eles se movimentam nos céus.

Com a influência dos Persas, os gregos absorveram a astrologia mesopotâmica e associaram os planetas aos deuses. Assim:

Phainon se tornou Cronos, inspirado em Ninurta (Ninib).
Phaeton se tornou Zeus, que assim se sincretizou com Marduk.
Pyroeis torna-se Ares (ou até Héracles), assim associado com o complexo Nergal.
Stilbon se torna sagrado a Hermes, ligado a Nabu (Nebo).

Os gregos aceitaram que Hésperos, o do anoitecer e Phosphoros, o do amanhecer, seriam o mesmo planeta e os consagraram a Afrodite.

De grande importância nesse esquema teve a influencia de Platão, preocupado com o ateísmo. Dizia ele que se os deuses estivessem visíveis nos céus, ninguém poderia duvidar de sua existência. Isso é parte de um enunciado de uma complexa religião sideral, onde as almas que alcançavam a salvação se tornavam estrelas.

Os romanos sincretizaram Cronos com Saturno, Zeus com Júpiter, Ares com Marte, Hermes com Mercúrio e Afrodite com Vênus.

Mais tarde, sistematizada por Ptolomeu (e outros), que foi influenciado pelo aristotélico Alexandre de Afrodisia, vem a astrologia que se torna extremamente popular. Antes, havia o recurso aos oráculos, como o de Delphos, ou o Necromanteion de Ephyra, o oráculo dos mortos.

A astrologia se constituiu em uma tradição, de certa forma questionável. Nergal, deus da guerra, do submundo e da pestilência foi conhecido pelos Hurritas e Hítitas como Aplu. Como sabemos, os hititas influenciaram fortemente a religião grega. Aplu pode ser o antigo nome de Apollo. Embora entremos nos domínios da mitologia comparada, Apollo foi também um deus da pestilência e do submundo, sendo que um de seus animais era o corvo. Os gregos o identificaram fortemente ao Sol, tanto que mais tardiamente tomou lugar ao culto de Hélios em algumas regiões, cada vez mais identificado com o Astro-Rei. Nergal também é algumas vezes identificado com Shamash, o nome acadiano do deus-Sol, que corresponderia ao sumério Utu.

Essa ligação Guerra-Pestilência-Submundo é parte dos elementos tanto solares quanto de Marte. Mas aí estamos atribuindo significados. Dessa forma, consigo influir na fórmula de que Dionísio seria Hades, proposta por Kerényi. Consigo embutir que tanto Apollo quanto Dionísio se encaixam como senhores do submundo.

Significados, significados e significados. Teorias ligadas aos significados.

E é aí que nasce o ponto ao qual quero discutir: Planetas como espelhos. Os céus cheios de significados. Planetas envoltos em diversas especulações, associações, divindades. O sujeito que cria seus objetos e os nomeia. Eventos influenciados pelos observadores.

Toda a teoria de significados planetários pode ser desconstruída e questionada. São corpos celestes que recebem o que queiramos dar. Uma sala de espelhos celeste. A astrologia calcificou seus significados e aplicações em uma tradição. Essa tradição funciona, efetivamente. Mas funciona a partir de quais parâmetros? Essa tradição é tecida pela realidade? Os significados dados aos céus são reais? Ou fazem parte da mente coletiva? Estaremos apenas reverberando pensamentos coletivos? A astrologia é capaz de observar a essência de cada um de nós? Estamos olhando para a Essência, para a Alma, para a mente?

Se estamos reverberando pensamentos coletivos, seriam os comportamentos das pessoas ligados a eles? A astrologia reflete a essência ou a máscara? Os planetas apenas refletem o que vemos, ou impomos o reflexo a partir do que parcamente compreendemos ser? Aquilo que compreendemos ser é o que podemos chamar de Essência?


Sophia



Dentro dessas questões, estamos acessando a Sophia? Existe Sophia na astrologia? Podemos chamar de Astro Sophia? Quando assim o digo, não estou propondo uma astrologia filosófica, pois o filósofo é apenas um amigo, ou assim o pretende ser, de Sophia. Estou falando de contato direto, o acesso, a percepção, os seus influxos. E os produtos do que os filósofos falam, muitas vezes parecem muito distantes de Sophia. Aqueles que dizem ser seus amigos sempre divergem em seus modelos e teorias. E Sophia é apenas e tão somente uma.

Olhando para os planetas como reflexos daquilo que quero significar, tento dar um sentido ao universo tendo como centro de eu mesmo. Posso assim fantasiar, me iludir, criar mundos, com maior ou menor sofisticação “simbólica”, intelectual ou filosófica. Estarei criando um castelo de cartas, todas com diversas significações tarológicas avançadas. Estarei tentando compreender o mundo a partir daquilo que flui de minhas indagações e investigações.

Porém, nada disso parece refletir a minha Essência. Os símbolos são o que são, não o que o declaro que sejam. Observemos primeiro o que são, antes de falar sobre eles e achar o que sejam.

Por muito tempo, advoguei que símbolo não tem significado. Um símbolo aponta. A experiência que temos com o que vem dele é o que conta. Essa experiência vem como um fenômeno. E a percepção parece ser absolutamente subjetiva.

O subjetivo aponta para o sujeito.

O sujeito deve estar ligado para com a sua Essência. Ou o subjetivo será moldado pela mente, por seus jogos e seus caprichos. Ou olharemos para o objeto e vemos o sujeito. O objeto é o objeto e não o sujeito.

Olhar para o espelho dos planetas é refletir o que impomos a eles.

Tornar-se o espelho dos planetas é refletir o que eles são.

Tornar-se o espelho dos espelhos.

O reflexo do reflexo do reflexo. Os reflexos são infinitos.